segunda-feira, 10 de outubro de 2016

sábado, 24 de setembro de 2016

Acampamento Shadow Falls

Os Sobrenaturais

Kylie Galen está na pior. Seus pais vão se divorciar, seu namorado acaba de romper com ela e, uma noite depois de ser presa por estar na festa errada, com as pessoas erradas e na hora errada, sua mãe a manda para Shadow Falls – um acampamento para adolescentes problemáticos, localizado numa cidade chamada Fallen no meio de uma misteriosa floresta, e isso muda sua vida para sempre.
Poucas horas depois de chegar, ela descobre, assustada, que seus colegas não são apenas problemáticos. Kylie nunca se sentiu normal, mas também não se considera uma daquelas aberrações paranormais. Ou será que é? Em Shadow Falls, vampiros, lobisomens, metamorfos, bruxas e fadas aprendem juntos a desenvolver seus poderes, controlar sua magia e viver no mundo normal. No entanto, as coisas tomam um rumo diferente quando Derek e Lucas entram em cena.
Derek é um fae que possui poderes mágicos e quer a todo custo namorar a Kylie, e Lucas, um lobisomem com quem ela partilha um passado secreto. De início, tudo o que Kylie deseja é sair de Shadow Falls e voltar para casa. Porém, com Derek e Lucas ocupando um lugar cativo em seu coração, e depois de descobrir que ela própria tem estranhos poderes, talvez sua vida nunca mais volte a ser a mesma...

  1. Nascida à Meia-noite
  2. Desperta ao Amanhecer [29/09]
  3. Levada ao Entardecer [04/10]
  4. Sussurros ao Luar
  5. Escolhida ao Anoitecer



Capítulo 39

— Não é assim que funciona — disse Derek dez minutos depois. Trazia a camisa completamente desabotoada. Sem dúvida, Kylie batera à porta de sua cabana quando ele se despia.
Kylie olhou para seu peito e viu que os arranhões estavam quase cicatrizados.
— O que quer dizer com “não é assim que funciona”? Pensei que você pudesse se comunicar com os animais.
Derek fechou a porta da cabana e levou Kylie para a varanda, como se tivesse receio de que algum de seus colegas de alojamento pudesse ouvir a conversa.
— Não posso simplesmente chegar lá e fazer perguntas pra eles. Ouço, ou melhor, sinto suas emoções. E nem todas.
— Mas, segundo você me contou, o leão te disse que não gostava do seu cheiro.
— Ele não me disse. Ele pensou — Derek sacudiu a cabeça. — Isso não vai dar certo, Kylie.
— Tem que dar — Kylie sentiu um aperto na garganta. — Eles vão fechar o acampamento, Derek. Estou começando a entender essa questão dos não humanos e não posso partir agora.
Ele a fitou por alguns instantes.
— Sei disso, mas...
— E não se trata apenas de mim. Você sabe o que vem acontecendo aqui. Um acusa o outro. E todos dizem que só o acampamento mantém a paz entre nós. Se aqueles homens acham que as gangues de sobrenaturais são ruins agora, imagine quando...
Derek pousou um dedo nos lábios de Kylie, que teve de lutar contra o desejo de meter as mãos pela abertura de sua camisa a abraçá-lo.
— Não estou discordando de você. Apenas acho que não vai funcionar.
Então ela se lembrou. Para que ficasse livre de seu dom, Derek teria de continuar se fechando para os animais. No entanto, ele a salvara do leão. Kylie nem tinha levado em conta seu sacrifício. Como podia ter se esquecido disso?
— Sinto muito — Kylie fechou os olhos por um instante. — Você diz isso por causa do seu dom, que não quer mais usar. Eu tinha me esquecido...
— Não — disse ele. — Tudo bem, talvez em parte.
— Não tem problema, Derek — garantiu Kylie, percebendo uma sombra de culpa nos olhos dele. Recordou-se de que, há poucas semanas, ela mesma daria tudo para não ter dom algum. — Não é justo de minha parte te pedir isso — e virou-se para ir embora.
Derek a segurou pelo braço.
— Espere — olhou-a bem nos olhos. — Eu falava sério quando disse que aquilo era apenas uma pequena parte de minha hesitação. Para ser franco, estou a ponto de abrir mão de tudo e assumir meu papel de Tarzan.
Kylie percebeu, por sua expressão, que ele dizia a verdade.
— Não se esqueça de que esse papel de Tarzan salvou minha vida. Portanto, não o menospreze.
— Eu sei. E é por isso que estou considerando a possibilidade de aceitá-lo. Mas o que você me pede... É demais pra mim. Não é como se eu pudesse me sentar e bater um papinho com os animais. Não é assim que funciona.
— Como sabe? — desafiou Kylie. — Já tentou?
— Não, mas... Outros, com o mesmo dom, tentaram. E, se eu pudesse de fato fazer isso, Holiday teria me dito.
— Holiday já explicou milhares de vezes que o dom de cada pessoa é diferente. Você disse que, até agora, só consegue ouvir os pensamentos deles; no entanto, de alguma forma, você pediu àquele leão que não nos transformasse em carne de hambúrguer.
— Mas ainda que, por um milagre, eu conseguisse me comunicar com os animais, não ia adiantar nada. O tal James da UPF não me deixaria chegar perto deles. Hoje mesmo ele me chamou novamente no escritório. Acha que estou envolvido. Chegou a me acusar de ter feito aquilo para impressionar você.
Kylie pensou em procurar Holiday imediatamente sabendo, no entanto, que a líder, com medo de ver alguém se machucar, não concordaria com a ideia. Ergueu o queixo em desafio:
— Pois bem, não vamos pedir nenhuma autorização. Vamos entrar sem que nos vejam.
— Acha mesmo que vai enganar um vampiro? Seria o mesmo que tentar enganar o Super-Homem.
— É, mas acontece que eu sei qual é a criptonita dele.
— O cara tem uma criptonita? — perguntou Derek.
— Tem. E o nome dela é Holiday.


Kylie tinha de admitir que não seria fácil. Mas, quando se tem apenas uma bala, convém caprichar no tiro. E foi o que ela e Derek fizeram. Precisariam de uma pequena ajuda, mas Kylie estava bastante orgulhosa do seu plano. Esperaram a uns cem metros da reserva animal, escondidos atrás das árvores. De acordo com Della, era distância suficiente para que Burnett não conseguisse farejá-los. Kylie trazia consigo o mapa do parque, que imprimira da internet no computador do escritório de Holiday.
Com Burnett fora do caminho, entrar na reserva seria moleza. Bem, seria porque eles contavam com a ajuda de um certo metamorfo com olhos que mudavam de cor. E, para evitar surpresas indesejáveis, Della faria urna varredura do parque e ficaria de vigia. A grande preocupação era se o dom de Derek lhe permitiria saber alguma coisa sobre os animais. Ele próprio não acreditava muito.
Mas Kylie queria acreditar em milagres.
Seu telefone tocou.
— Feito — informou Miranda.
Aquilo significava que Miranda tinha conseguido roubar o telefone de Holiday e enviar a Burnett uma mensagem à qual Kylie sabia que ele não iria resistir. Helen, que se prontificara a ajudar, tinha conseguido arrastar Holiday para bem longe. Quanto mais tempo Burnett gastasse procurando Holiday, mais minutos preciosos Derek teria para lidar com os animais. Primeiro, no entanto, precisavam que Burnett caísse fora. E ele fez isso minutos depois, batendo a porta do escritório e sumindo na noite.
— Parece que está com pressa — sussurrou Derek.
— Acho que ele gosta mesmo de Holiday — sentiu-se um pouquinho culpada por enganar Burnett. Mas, para compensar a mentira, Kylie poderia mais tarde ajudar os dois a se entender.
— Pronta? — perguntou Derek.
Ela assentiu com a cabeça. Correram para o parque, sabendo que corriam também contra o relógio. Perry já tinha aberto o portão para os dois quando chegaram.
— Até mais — disse ele. Como sua presença podia assustar os bichos, apressou-se a ir embora, com fagulhas flutuando à sua volta enquanto se transformava numa águia e desaparecia na escuridão do céu.
— Ver isso ainda me assusta — confessou Della, parando ao lado de Kylie.
— Encontrou alguma coisa? — foi logo perguntando Kylie, pois seu tempo era curto.
— Um guarda humano, dormindo em serviço no escritório dos fundos — Della fez uma pausa. — Não querem mesmo que eu vá com vocês?
Kylie sacudiu a cabeça.
— Acho que, quanto menos gente, mais probabilidades Derek terá de se comunicar com os animais. Vá para o acampamento e nos avise quando Burnett voltar. Tomara que dê tempo de sair daqui.
Tendo já estudado o mapa, Kylie e Derek se encaminharam primeiro para o local conhecido como “toca do leão”. Toca do leão? Isso não parecia nada convidativo. Embora algumas estrelas brilhassem, a lua desaparecia em meio às nuvens de vez em quando. Até os sons dos bichos pareciam mais agourentos que o usual, mas talvez a percepção de Kylie estivesse distorcida por ela saber que estava infringindo a lei. Fosse como fosse, caminhava o mais próximo possível de Derek.
— Os leões estão bem ali, logo depois da curva — avisou ele.
Um cheiro, que Kylie não sabia se era ou não de urina de felino, invadiu suas narinas.
— Posso sentir o cheiro — aquele odor a levou de volta ao quarto onde tinha ficado com o leão. Começava a entrar em pânico.
— Relaxe — disse Derek.
O fato de ele poder ler suas emoções ainda a irritava.
— Estou tentando.
— Eu só gostaria de saber uma coisa — disse Derek, ao mesmo tempo em que um leão começava a rugir.
— O quê?
— O que você vai fazer se descobrirmos que Lucas está por trás disso?
— O mesmo que farei se descobrir que o culpado é outro. Contar a Holiday — parou por um instante. — Mas não é isso que vamos descobrir.
— Você parece bem certa de que ele é inocente.
Kylie podia sentir Derek estudando-a.
— E você, de que ele é culpado.
— Por causa das provas.
— São todas circunstanciais.
— Para quem tinha tanto medo do cara, você mudou muito!
Kylie percebeu aonde aquela conversa podia levar e preferiu parar por ai.
— Só quero descobrir quem anda fazendo isso e impedir aqueles caras de fecharem o acampamento.
— Eu também — disse Derek.
Uma lufada de ar frio a envolveu e Kylie cruzou os braços sobre o peito. Derek a encarou.
— O fantasma está aqui?
— Talvez — Kylie olhou para os lados e não o viu. — Ele só voltou umas poucas vezes depois do incidente com o leão e nunca ficou mais que alguns segundos.
— Pode ser que ele nos ajude agora, como nos ajudou naquele dia.
— É, pode ser. Mas espero não precisar de nenhuma ajuda — disse Kylie. O frio se foi tão depressa quanto veio.
Pararam junto à grade.
— Chegamos — avisou Derek, olhando por entre as barras.
— Eles estão aí? — Kylie não conseguia vê-los.
— Estão, atrás das árvores e na margem do lago, mais adiante.
— Sabem que estamos aqui?
— Ah, com certeza.
Kylie deu um passo para trás.
— Como vai fazer isso?
— Esperava que você me dissesse — riu Derek.
— Fala sério?
— Mais ou menos — retrucou ele, parecendo um tanto inseguro.
— Tudo bem — Kylie mordeu o lábio. — Consegue lê-los?
— Por enquanto, só percebo que eles nos veem como uma ameaça.
— Por quê? — perguntou Kylie, ao mesmo tempo em que o som de outro animal selvagem, talvez um elefante, enchia a noite. — Com certeza não é só isso que estão sentindo.
— São machos — respondeu Derek, com um risinho maroto. — Nós, machos, não expomos facilmente nossos sentimentos.
— Muito engraçado — murmurou Kylie.
— Também acho — concordou Derek, ainda sorrindo.
— Isto é sério — e Kylie deu-lhe uma cotovelada de leve.
— Eu sei — o sorriso de Derek se apagou. — Eu te disse que não sabia se a coisa ia funcionar.
— Tente se concentrar — recomendou Kylie. — Pergunte a eles do que têm medo.
Derek encostou a testa na grade e fechou os olhos. Kylie ficou observando-o enquanto o tempo passava – um minuto, dois. Precisou fazer um esforço para não perguntar se aquilo estava funcionando.
Então pensou que, se ela também se concentrasse, talvez facilitasse as coisas para ele. Colocou-se às suas costas e pousou as mãos nas laterais do seu corpo. Do que vocês têm medo? Do que vocês têm medo?, repetiu mentalmente.
— Kylie? — sussurrou Derek.
— Está captando alguma coisa? — perguntou ela, esperançosa.
— Estava até você...
— Até eu...?
— Encostar seus seios em mim. Depois disso, parei de escutar o leão — riu Derek. — Precisa se afastar um pouco.
Kylie recuou um passo e lhe deu uma tapa nas costas. Derek riu ainda mais, mas logo voltou a se concentrar. Kylie ouviu um rumor por trás da grade.
— Acho que um deles está se aproximando.
— Shiihhh! — ordenou Derek.
Kylie se calou imediatamente, mas, quando o leão arremeteu contra a grade, deixou escapar um grito quase tão alto quanto o rugido da fera – e, dando um pulo para trás, foi cair sentada no chão.
— É o mesmo leão, não é? — perguntou Kylie, fitando a criatura que também não tirava os olhos dela. Jamais esqueceria aqueles olhos, amarelados e famintos.
Derek não respondeu. Nem se voltou para lhe oferecer a mão e ajudá-la a se levantar. Kylie notou então que ele permanecia imóvel, com os olhos abertos, fitando a fera como se... Conversasse mentalmente com ela.
Ainda sentada no chão, para não perturbá-los, esfregou as mãos para limpá-las da areia. Mas não teve nem tempo de pensar quando se viu puxada para cima. Gritou e outra mão lhe tapou a boca. Derek se voltou, mas, antes de conseguir dar um passo, um homem loiro o agarrou pela garganta e o pressionou contra a grade. O leão rugia às suas costas.
— Não faz barulho! — Kylie não identificou a voz. E, pelo toque gelado, concluiu que seu agressor era um vampiro ou outra criatura qualquer de sangue frio.
Derek lutava para se soltar, enquanto o rugido da fera ia se tornando mais ameaçador.
— O que estão fazendo aqui? — perguntou o agressor de Kylie.
Kylie deu um jeito de olhar para ele. Cabelos vermelhos. Olhos vermelhos, combinando com os cabelos. Sem dúvida um vampiro, pensou ela notando, além disso os caninos que se projetavam ligeiramente sobre o lábio inferior.
— Parece que alguém está com fome — zombou Vermelho, o vampiro que a imobilizava. — O gatinho bem que gostaria de devorar uma coisinha fofa como você. O problema é: eu também!
— O que está fazendo? — gritou o garoto loiro que segurava Derek pelo pescoço, antes de cair desmaiado no chão.
Pela expressão rígida de Derek, Kylie percebeu que ele tinha feito alguma coisa com o loiro. Em seguida, seu olhar se desviou para ela e Vermelho.
— Tira as mãos dela — ordenou Derek, com voz ameaçadora.
Derek avançava na direção dele quando, aparentemente do nada, mais dois sujeitos apareceram e o agarraram, cada um por um braço. Ele reagiu, tentando se soltar.
— Queiram me desculpar — disse o agressor de Kylie. — Acho que vou comer um petisco.
De um salto, recuou quase dez metros, arrastando Kylie com ele. Foram cair com estrondo no chão. O corpo todo de Kylie se chocou contra o chão e ela mordeu a ponta da língua com força. Sentiu o gosto do sangue que escorria da língua. Tentou se soltar, mas a força do vampiro fazia-a sentir-se tão indefesa quanto um besouro diante de um para-brisa de um carro em movimento.
— Ah, que cheirinho bom! — o vampiro levantou Kylie do chão e virou-lhe a cabeça para seu lado. — E ainda por cima, bonita — examinou os seus traços por um segundo, como se lesse seu padrão e colou seus lábios aos dela – não queria beijá-la e sim beber seu sangue. Mas Kylie não iria deixar que isso acontecesse.
Lute. Jogue sujo. Lembrou-se da lição número um que o pai tinha lhe ensinado para se livrar de tarados. Recuando a perna e concentrando toda a sua força, golpeou com o joelho os genitais do cretino. Nem tinha sequer considerado se os vampiros tinham o mesmo ponto fraco. O grito daquele, porém, revelou que tinham. Só não tinha contado com a possibilidade de ser arremessada pelos ares como uma boneca de pano. Suas costas bateram contra a grade e ela desabou no chão.
Uma voz lhe dizia que se levantasse e se preparasse para lutar. Mas, incapaz de respirar, teve que fazer um esforço descomunal apenas para abrir os olhos. Viu então os dois vampiros que haviam atacado Derek estendidos no chão, como o primeiro.
— Kylie, você está bem? — Derek surgiu de repente ao seu lado.
— Ela é minha — disse uma voz grave.
Paralisada, Kylie viu o vampiro que a beijara agarrar Derek pelo pescoço e arremessá-lo por sobre a cerca, no território dos leões. As feras rugiram e ela imaginou Derek sendo estraçalhado.
— Não! — gritou.
O vampiro olhou-a como se ela fosse o brinde na caixinha de cereais.
— Você é o quê? — perguntou ele e adiantou-se para erguê-la do chão.
Kylie sentiu-se congelar. Como nunca antes. Agulhas de gelo picavam sua pele, penetravam nos tecidos e chegavam até os seus ossos. Por um segundo, seus membros ficaram paralisados. Mas, de repente, viu-se de pé. O vampiro segurava alguém nos braços. E esse alguém era ela. Os olhos da criatura agora faiscavam, mais vermelhos ainda. Coisa estranha, não estava com medo. Esperou que ele se aproximasse mais, sentindo que podia enfrentá-lo. Mas sem saber como. Com o canto dos olhos, viu Derek pular a grade.
— Mandei soltá-la — gritou ele, avançando contra Vermelho.
A criatura largou Kylie e empurrou Derek contra a grade.
— Parece que você não sabe a hora de morrer, não é? — zombou.
Mas então outra figura surgiu do nada e golpeou Vermelho com tamanha violência que ele caiu. Kylie reconheceu Della imediatamente. Derek se virou para socorrer Kylie, mas outra figura negra o jogou de novo contra a grade. Sem pensar, Kylie avançou. Agarrou o vampiro que atacava Derek e o arremessou para longe. Numa espécie de transe, viu o corpo dele voar dez ou quinze metros no ar até cair num amontoado de arbustos. Virou-se. Derek olhava através dela.
— Uau, viu isso? — ela perguntou, mas ele não respondeu. Derek foi juntar-se a Della para conter o vampiro que Kylie tinha golpeado. O gosto da boca do vampiro continuava na língua de Kylie e ela queria cuspir. Mas antes disso se aproximou, escolheu um ponto vulnerável no corpo dele, fechou o punho e socou. O vampiro voou para trás e caiu sobre um monte de terra.
Derek e Della olharam um para o outro, perplexos.
— Kylie? — chamou Derek.
— Estou aqui — respondeu ela. Mas imediatamente o viu correr e debruçar-se sobre seu corpo estendido no chão, virando-o. Um choque a percorreu da cabeça aos pés. Se ela não estava em seu corpo, onde estaria?
Derek chamou-a de novo e disse por fim:
— Anda, respira! Pelo amor de Deus, Kylie, respira! — disse ele.
Caramba! Estaria morta?

Capítulo 40

Examinando suas roupas, Kylie constatou que vestia um uniforme militar. Estava... No corpo espiritual de Daniel Brighten de novo – assim como no sonho. Isso significava que não tinha morrido? Olhou para seu próprio corpo e viu que Derek tentava se livrar de mais dois vampiros. Della correu em seu auxílio.
Lembrando-se de que poderia ajudá-los como o fantasma de Daniel, Kylie deu um passo à frente. Mas, de imediato, percebeu que tinha voltado para o próprio corpo. Tentou se levantar. Mas qualquer movimento provocava dores intensas. Alguém apareceu, juntando-se a Derek e Della na luta. Kylie estranhou ao ver seu novo aliado.
Sky?
Lanternas iluminaram a cena. As sombras da noite, bem como vários dos agressores, dispersaram-se como ratos. Burnett e outros indivíduos, com jeito de serem também membros da UPF, pareciam surgir de todos os lados. Agarraram uma dupla de vampiros e algemaram seus pulsos e os tornozelos.
Derek correu na direção de Kylie.
— Você está bem?
Ela fez que sim, embora o corpo doesse em lugares que nunca pensara que pudessem doer.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Burnett a Derek. E estendeu as mãos, como se quisesse também algemá-lo.
— A culpa foi minha — intercedeu Kylie. — Eu o obriguei a fazer isso.
— Não obrigou, não — contestou Derek.
— Eu é que dei a ideia — interrompeu Della, aproximando-se.
— Estão todos mentindo. Nenhum deles tem culpa — disse Sky.
Todos ficaram em silêncio por um longo momento, até que Derek falou:
— Sky plantou as pistas falsas de sangue que conduziam ao acampamento. Ajudou estes caras a pegar os animais. Mas, no fim, veio em nossa defesa.
Kylie sabia que Derek tinha ouvido aquilo de seu contato mental com os leões. Os animais tinham falado com ele, como Kylie tinha esperança que fizessem. Uma centelha de alegria por ter tido razão iluminou o caos do momento e Kylie se permitiu saboreá-la.
— Ele está falando a verdade — e Sky estendeu os braços para ser algemada.
Burnett colocou as algemas nela.
— Por quê? — perguntou, olhando-a com repulsa.
— Eles... — começou Sky, olhando para os vampiros algemados — estão com minha irmã. Ameaçaram matá-la se eu não os ajudasse a fechar o acampamento. — Olhou para Kylie. — Concordei, pensando que era só o que queriam, mas isto... Prometeram que ninguém sairia ferido. Não sei como o leão foi parar na sua cabana, Kylie, juro. Eu deveria levar as bruxas para um passeio. Desconfiava que estivessem planejando alguma coisa, mas não pensei... Eles me garantiram que ninguém sairia ferido — sacudiu a cabeça e voltou-se para Burnett. — Só estava tentando salvar minha irmã.
— Eles? Quem são “eles”? — resmungou Burnett, olhando para os dois vampiros algemados no chão. Um deles rugiu para Burnett e tentou se desvencilhar. Dois outros agentes da UPF o imobilizaram.
Kylie notou então que o vampiro de cabelos avermelhados, o primeiro que a atacara, havia desaparecido. E essa simples constatação fez seu corpo todo se arrepiar.
— A Confraria do Sangue — respondeu Sky. — A gangue dos vampiros.
— E por que queriam fechar o acampamento? — perguntou Burnett.
— Acham que o acampamento está corrompendo membros em potencial — explicou Sky. — E, pelo que dizem, não são os únicos a pensar dessa maneira. A maioria das gangues já começa a se rebelar contra nossa instituição.
— Sabe onde estão mantendo sua irmã presa? — quis saber Burnett. Kylie percebeu em sua voz certa simpatia pelo dilema de Sky.
— Não. Mas meu pai contratou alguém para encontrá-la.
Holiday apareceu correndo e logo seus olhos pousaram nas algemas de Sky.
— Mas o que você está fazendo? — ela perguntou a Burnett.
— Meu trabalho — limitou-se a responder Burnett, afastando-se com Sky.
Holiday impediu sua passagem.
— Solte-a...
— Ele não pode, Holiday — suspirou Sky. — Ele está certo. Eu estraguei tudo. Lamento muito.
— Lamenta pelo quê? — perguntou Holiday.
Sky olhou para Derek.
— Conte tudo a ela — pediu.
Burnett voltou-se para Holiday como se fosse lhe dizer alguma coisa, mas logo fez sinal a Sky para que continuasse andando.
Holiday se virou para Kylie, Della e Derek.
— É melhor alguém começar a falar. E rápido.
Holiday chamou um médico e pediu que ele examinasse a todos cuidadosamente. Além de alguns arranhões e ferimentos leves, ninguém estava seriamente ferido. Passava das duas da madrugada e os músculos de Kylie doíam tanto que ela só pensava em ir para a cama. Mas, aparentemente, Burnett tinha outros planos.
Kylie e seus “comparsas” – por algum motivo Helen, Perry e Miranda confessaram participação em sua trama – receberam ordens para aguardar no refeitório. Holiday e Burnett entraram. Kylie viu sofrimento nos olhos da líder; sem dúvida, a traição de Sky a magoara muito.
Burnett iniciou o diálogo – ou bronca. Referiu-se ao que tinham feito como estupidez e loucura. Garantiu que tinha sido muita sorte ninguém ter morrido. Blá, blá, blá. E ele estava certo. Mas Kylie faria tudo de novo sem hesitar.
Ficou sentada comportadamente e aceitou seu castigo como os demais. Sabia que, invadindo a reserva, correria alguns riscos, mas jamais poderia imaginar que entraria em guerra com uma gangue de vampiros. Só o que queria era levar Derek até os animais para que ele tentasse obter deles algumas respostas.
E o plano, por sinal, tinha funcionado. Embora Burnett não o reconhecesse em seu longo sermão, evidentemente.
— Vocês pensaram, por um instante sequer, que eles estavam em número maior, na proporção de cinco para um? Não posso acreditar... — e continuou seu discurso, lembrando-lhes que, como sobrenaturais, deviam ser um pouco mais espertos.
Uma pergunta ocorreu a Kylie e, antes que ela pudesse se controlar, escapou-lhe dos lábios:
— Vocês ainda pretendem fechar o acampamento?
Burnett, irritado com a interrupção, franziu a testa.
— Se esse é o tipo de comportamento que podemos esperar de vocês, não tenho alternativa.
Chega! Chega! Chega!
Quando a palavra vibrou na mente de Kylie pela terceira vez, ela se levantou:
— Fizemos a única coisa que, a nosso ver, podia ajudar.
Não sabia de onde lhe vinha tanta coragem, talvez do cansaço, mas não conseguia se conter.
— Você parece ter se esquecido de que não tínhamos intenção nenhuma de brigar com uma gangue de vampiros. Só queríamos que Derek entrasse em contato com os animais para saber quem, afinal, era o responsável por tudo aquilo.
— Deviam ter nos consultado — ponderou Holiday.
Embora Kylie simpatizasse com a líder do acampamento, tinha uma observação a fazer. Se tinha enfrentado Burnett, poderia enfrentá-la também.
— E por que faríamos isso? — perguntou. — Não confiou em nós o bastante para contar o que estava acontecendo. Tudo bem, sabemos que você é a líder, mas não estamos no jardim de infância. Você diz que viemos aqui para aprender a lidar com o mundo lá fora, mas depois tenta nos esconder qualquer coisa que possa parecer desagradável. E se tivéssemos procurado você, com certeza não teria nos apoiado por achar que seria perigoso... — e, apontando para Burnett: — E digo o mesmo de você.
— Já chega — resmungou Burnett.
Ainda não.
— Mesmo que Holiday tivesse concordado, você não deixaria que Derek fosse à reserva porque considerava todos nós suspeitos.
— É isso aí — sentenciou Derek.
— Concordo — disse Della.
— Mandou bem, Kylie — apoiou Miranda.
Todos, na sala, balançaram a cabeça concordando com o que Kylie acabara de dizer.
— Não importa — reagiu Burnett.
— Importa, sim — Holiday ergueu a mão para silenciar o vampiro alto, moreno e ameaçador. — Kylie está certa. É difícil admitir, mas ela está certa.
Holiday respirou fundo.
— Costumo mesmo ser superprotetora — olhou para Burnett. — E você costuma ser... Bem, um idiota — a expressão de Burnett oscilava entre o choque e a raiva. — Estou apenas sendo honesta — continuou Holiday, fitando Kylie e os demais. — E respondendo à sua pergunta, Kylie, Burnett já me informou que felizmente o acampamento não será fechado.
Ouviu-se no recinto um brado geral de vitória.
— Na verdade... — Holiday relanceou os olhos para Burnett, como se lhe pedisse permissão para continuar. Ele fechou a cara, mas não se opôs. — Na verdade, me informou também que meu pedido para transformar o Acampamento Shadow Falls em Escola do Acampamento Shadow Falls foi aceito.
— Uma espécie de escola de tempo integral? — perguntou Kylie.
Holiday fez que sim e relanceou os olhos para Della.
— Temos esperança de que isso ajude a aliviar um pouco a pressão sobre os novos sobrenaturais que acham impossível conviver com suas famílias normais. Permitirá que mantenham contato e, se Deus quiser, evitará que essas famílias se desagreguem por completo.
Kylie sorriu e virou-se para Della, que parecia prestes a chorar.
— E — continuou Holiday —, embora eu tenha chamado o Sr. James aqui de idiota, o que é verdade, gostaria de acrescentar outra coisa: hoje à noite, seu chefe me contou que, ao contrário do que eu pensava, ele tem sido um defensor da escola. Segundo esse chefe, o Sr. James vem nos apoiando o tempo todo. Assim, gostemos ou não... E eu, devo confessar que não gosto... Ele merece o nosso respeito.
Burnett, de braços cruzados sobre o peito, não tirava os olhos de Holiday. E Kylie suspeitou que Holiday não correspondia o olhar só para aborrecer Burnett.
— Era só isso o que eu tinha a dizer — e a líder caminhou para a porta. — Já é tarde e, como amanhã é dia da visita dos pais, teremos que nos levantar bem cedo e bem dispostos, mesmo que seja preciso fingir.
Miranda, Della e Kylie saíram juntas.
— Chan não estava lá — disse Della. — Eu teria sentido seu cheiro.
— Sei disso — tranquilizou-a Kylie.
— Quem é Chan? — perguntou Miranda.
— Mais tarde eu explico — prometeu Della. E, virando-se para Kylie: — Quando Sky disse que não colocou o leão no seu quarto, estava falando a verdade.
— Foi o que pensei — disse Kylie. Mas algo naquele incidente ainda a intrigava, embora ela não soubesse o quê.
Aproximavam-se de sua cabana quando Kylie avistou Derek.
— Vão vocês — disse às amigas. — Quero dizer boa-noite a ele.
— Sentiu o cheiro dos hormônios? — perguntou Della a Miranda.
Kylie fez uma careta para Della enquanto as duas amigas se afastavam e virou-se para ir ao encontro de Derek.
— Ei, espera um pouco! — chamou.
Derek deu meia-volta e caminhou na direção dela. Quando se encontraram, ele sorria.
— Gostei de vê-la enfrentar Burnett e Holiday.
Kylie deu de ombros. Não sabia de onde tinha tirado tanta coragem, mas pelo menos tinha conseguido dizer o que queria. E não estava nem um pouco arrependida.
— E eu gostei do modo como você enfrentou aqueles vampiros. Como conseguiu? Eles iam caindo um depois do outro.
— Aparentemente, tenho a capacidade de abalar seu sistema com uma sobrecarga emocional — sorriu Derek. — Foi demais, não foi?
— Se foi! — exultou Kylie.
Derek olhou-a atentamente.
— Seu fantasma também estava lá, não estava?
— Estava — respondeu Kylie, sem se sentir ainda pronta para comentar sua experiência fora do corpo.
Seus olhares se encontraram e não se desviaram.
— O plano funcionou, hein? — disse ela. — Você se comunicou com os animais. Por isso sabia tudo a respeito de Sky.
— É. Você estava certa.
Kylie notou algo diferente na voz dele – talvez arrependimento.
— Está chateado por causa disso? — perguntou. Uma forte sensação de culpa oprimiu seu peito. Derek tinha feito aquilo por ela. — Se está... Espero que me desculpe...
Derek pousou um dedo sobre os lábios dela.
— Não precisa se desculpar. Estou feliz com o que fiz. Foi o certo — ajeitou uma mecha dos cabelos de Kylie atrás de sua orelha e deixou a mão lá. — Mandamos bem. Somos uma boa equipe.
— Você já salvou a minha vida duas vezes. Três, se contarmos a cobra — ergueu os olhos para ele, para seu sorriso doce. O toque da mão de Derek em seu pescoço era agradável. Muito bem-vindo. Sem pensar, Kylie ficou na ponta dos pés e pressionou os lábios contra os dele.
Não foi Derek que começou o beijo. Foi ela. Não foi Derek que aprofundou o beijo. Foi ela. Não foi Derek que se aproximou um pouco mais. Foi ela. Não que ele tenha se importado, é claro. Mas foi ele que invadiu com a língua a boca de Kylie. E ela ouviu uma voz interior sussurrar: “Opa!” Kylie recuou um pouco. Estavam ambos sem fôlego. Kylie achou que, nem quando lutavam contra os vampiros do mal, tinham respirado com tanta dificuldade.
Derek abriu os olhos e a observou atentamente.
— Uau!
Kylie inspirou, ainda com esforço, tentando desanuviar a cabeça. Fitou os próprios pés, pois olhá-lo agora nos olhos era demais para ela. Não tinha pensado que aquilo fosse acontecer. Ou tinha?
Derek segurou o queixo de Kylie e levantou sua cabeça. Que droga, ia obrigá-la a olhá-lo! E talvez fazer a pergunta a que ela não poderia responder.
— O que foi isso, Kylie? Apenas um agradecimento por salvar a sua vida ou... Algo mais?
Era a pergunta que ela temia.
— Não sei — respondeu Kylie com sinceridade. — Talvez um momento de fraqueza.
— Então me faça um favor — riu Derek, aproximando-se.
— Qual?
— Sempre que se sentir fraca, me procure.
Kylie levantou a mão para lhe dar um soco de leve no peito, mas ele a deteve. Levou a mão dela aos lábios, sem desviar seus olhos verdes dos dela e, gentilmente, beijou a ponta dos seus dedos. A umidade de seus lábios fez com que um arrepio delicioso percorresse a espinha de Kylie.
Por alguma razão desconhecida, o segundo beijo foi mais perturbador que o primeiro. Kylie notou então como o céu estava bonito. Um céu... Encantado. As estrelas cintilavam como num filme da Disney. Aquilo seria obra de Derek? Estaria usando seus dons para fazê-la ver as coisas de maneira diferente? Mas, e se estivesse? Que importância tinha? Kylie não saberia responder.
— Acho que... Acho que é melhor eu ir. Amanhã é o dia da visita dos pais.
— Vou acompanhar você até a cabana — prontificou-se Derek, arqueando a sobrancelha.
— Não vou te beijar de novo — disse ela, sem pensar.
— Aposto que vai — riu ele.
Kylie sabia que Derek estava certo, mas...
— Esta noite, não.
— Eu imaginei. Ainda bem que sou paciente.


O beijo de Derek e talvez também tudo o que tinha acontecido antes ajudaram Kylie a não pensar na visita da mãe – e no que lhe diria ou não diria a respeito do pai se esfregando com a garota no meio da rua. E havia aquela pergunta a fazer. A pergunta que dava um nó na sua garganta. A pergunta em que não queria pensar.
Mas agora, aguardando a chegada da mãe no refeitório, ela achava que talvez devesse ter refletido sobre aquilo, porque algumas coisas simplesmente ela não podia falar sem pensar.
A mãe entrou, procurando-a com os olhos. Kylie aproveitou aquele instante para observá-la bem. Cabelos e olhos castanhos. Kylie não se parecia em nada com ela, exceto pelo nariz ligeiramente arrebitado.
— Que dificuldade para te encontrar! — exclamou a mãe, enquanto se sentavam numa das mesas mais vazias. Ela mal se sentara na cadeira e já foi dizendo: — Você não tem dormido bem, não é, Kylie?
Seria aquilo uma espécie de radar materno, que a fazia adivinhar essas coisas?
— Apenas um pouco de insônia — mentiu Kylie.
A mãe debruçou-se sobre a mesa e perguntou em voz baixa:
— Não tem tido aqueles pesadelos, tem?
— Não — respondeu Kylie.
O olhar da mãe assumiu a expressão “não minta para mim”.
— Juro — reforçou Kylie.
— Está bem.
— Olá para todos — saudou Holiday à porta. — Normalmente não falo com vocês durante estas visitas, mas tenho notícias que gostaria de comunicar. Primeiro, lamento informar que, por motivos pessoais, Sky Peacemaker, minha colega no comando do acampamento, precisou se afastar — Kylie tinha que reconhecer: Holiday tinha dado um jeito de explicar as coisas sem necessariamente mentir. — No entanto — prosseguiu a líder — a vaga logo será preenchida. Até lá contaremos com um substituto temporário. Apenas temporário. Apresento-lhes o Sr. Burnett James, que foi muito bem recomendado — Holiday devia ter dito o “apenas temporário” com imenso alívio, pensou Kylie. Trabalhar com Burnett seria sem dúvida um fardo para ela. — A segunda notícia é... — e Holiday contou que o acampamento se transformaria num internato.
Kylie ficou observando a mãe enquanto Holiday contava as novidades. Só faltava a mãe se levantar, aplaudir e gritar: Finalmente livre, finalmente livre. Mas, estranhamente, a mãe conteve seu entusiasmo. Kylie sentiu uma pontada de culpa. Seria injusto que, querendo ela própria permanecer ali em tempo integral, recriminasse a mãe por querer o mesmo.
Depois que Holiday concluiu o discurso, Kylie se voltou para a mãe e disse:
— Quer dar uma voltinha? Há uns lugares bem bonitos no bosque.
A mãe olhou para baixo.
— Claro. Ainda bem que vim de tênis.
Kylie decidiu levar a mãe até a trilha menos difícil, que terminava perto do riacho, O lugar não era tão agradável quanto o dela e de Derek, mas serviria. Antes, passou na cabana para apanhar um cobertor no qual pudessem se sentar.
A mãe percorreu os cômodos, examinando-os.
— Meio apertado, mas agradável — comentou ela.
Socks saiu correndo do quarto e atracou-se com os cadarços de seu tênis.
— Ah, que gracinha! — disse ela, apanhando o gato e aproximando-o do rosto. — De quem é?
— Meu — respondeu Kylie.
A mãe pareceu surpresa.
— Não acha que deveria ter me consultado antes a respeito disso?
— Bem... Tem razão, acho que sim — balbuciou Kylie.
A mãe continuou admirando o gato.
— Sabe que gato este aqui me lembra?
— Socks? — arriscou Kylie.
— É. Você se lembra dele também? Nós o tínhamos quando você nasceu. Seu pai me deu no dia em que fizemos nosso primeiro ultrassom. Ele estava tão entusiasmado... — interrompeu-se e sacudiu a cabeça como para se livrar daquela recordação. — É, um belo gatinho — e colocou-o no chão quase como se o censurasse por ter evocado nela uma lembrança dolorosa.
Kylie notou a emoção nos olhos da mãe e desejou poder dar um soco no pai. Engoliu em seco para desfazer o nó que ia se formando em sua garganta e foi procurar o cobertor. Caminharam em silêncio durante algum tempo e por fim a mãe perguntou:
— Tem telefonado para seu pai, não tem?
Kylie pensou em inventar uma mentira, mas disse apenas:
— Ele também tem meu telefone, mãe. Quando quiser falar comigo, pode me ligar.
— Querida, os homens não são muito bons nisso...
— Não estamos falando dos homens. Estamos falando do papai.
— Tenho certeza de que ele teve motivos para não vir ver você. Seu trabalho às vezes o absorve muito.
— Verdade? Então foi por isso que você fez churrasco da cueca dele?

Capítulo 41

A mãe continuou caminhando ao lado de Kylie pela trilha do bosque.
— Não gostei nada de fazer aquilo.
— Pois deveria — rebateu Kylie. — Acho que foi certo.
A mãe a encarou antes de falar:
— Ele está tendo problemas, Kylie. Nada mais.
O fato de a mãe defendê-lo irritou Kylie.
— É, o problema dele é sua assistente superjovem.
A mãe se deteve e a pegou pelo braço. Tinha lágrimas nos olhos.
— Ah, querida, sinto muito.
Kylie sacudiu a cabeça.
— Por que pede desculpas? Está tendo um caso também? Juro que, se você estiver saindo com alguém da minha idade, vou me divorciar dos dois.
— Não. Eu nunca... Eu não queria... que você soubesse. Vocês eram tão ligados! — Pousou a mão sobre os lábios trêmulos por alguns segundos. — Como descobriu?
Kylie achou que sua mãe ficaria muito magoada caso ela contasse que o pai tinha trazido a garota na semana anterior, por isso disse apenas:
— Peguei papai mentindo.
A mãe balançou a cabeça:
— Ele nunca foi um bom mentiroso.
Kylie se perguntou se poderia dizer o mesmo da mãe. Seu pai saberia dizer? Deteve-se, fechou os olhos e reexaminou a pergunta que precisava fazer.
— Muito bonito — disse a mãe.
Kylie abriu os olhos e a observou admirando o riacho.
— É — Kylie avançou até a margem e estendeu o cobertor para que se sentassem.
A mãe se acomodou e olhou para a água.
— Tem mesmo uma cachoeira por aqui?
— Me disseram que sim — respondeu Kylie, tentando não denunciar no tom de voz a frustração por nunca ter visto a tal cachoeira. E naquele mesmo instante decidiu que, mesmo sozinha, ainda iria lá. Podia parecer maluquice, mas aquilo era importante para ela. — Mas eu nunca vi.
— Por que não?
Kylie deu de ombros.
— Existe uma lenda de que existem fantasmas lá. A maioria das pessoas tem medo de visitar o local — inclusive eu, pensou Kylie, preferindo não dizer isso em voz alta... Por enquanto.
— É mesmo? — a mãe parecia intrigada. — Adoro histórias de fantasmas, e você?
— Às vezes — respondeu Kylie com franqueza, virando o rosto para que a mãe não lesse nada em sua expressão.
— É bem tranquilo aqui — observou a mãe. — Estou gostando — inclinou-se e acariciou a mão de Kylie. — Obrigada por me trazer.
Kylie, por covardia, adiou a pergunta que não gostaria de fazer e passou a um tema menos explosivo. Um tema que agradaria à mãe.
— Que acha da transformação do acampamento em internato?
— A líder do acampamento parecia muito feliz com isso — disse a mãe, ainda contemplando a água.
— Que tal se eu me matriculasse?
A mãe virou-se para Kylie.
— O quê? Meu bem, será um internato. Significa que você teria que morar aqui.
— Eu sei — respondeu Kylie, francamente impressionada com aquela reação. — Mas pense: você não precisaria ficar comigo — tentou imprimir às palavras um tom sarcástico. Mas, a julgar pela expressão da mãe, não conseguiu acertar no alvo.
— Não. Vamos deixar as coisas bem claras. Não e não. Você tem um lar e mora comigo.
Duas constatações de ordem emocional abalaram Kylie ao mesmo tempo. Primeira: ela realmente queria, ou melhor, precisava ficar no acampamento. De algum modo, tinha que conseguir a permissão da mãe. Segunda: a mãe não queria ficar livre dela. Kylie estava certa de que, se pudesse escolher, a mãe faria sua mochila e a poria para fora num piscar de olhos. Com aquelas emoções agitando-se furiosamente em seu peito, Kylie já não sabia o que dizer.
— Eu... Eu realmente gosto daqui, mãe.
— Gosta da sua casa também.
Gostava, não gosto mais, seria a resposta certa, mas que de repente lhe parecia cruel.
— Mas...
— Se com isso está querendo se vingar do divórcio... — começou a mãe.
— Não — negou Kylie. — Juro! É só que aqui é um lugar legal. Vou poder descobrir quem de fato sou. Você sempre dizia que eu tinha “problemas de relacionamento” porque não queria pertencer a nenhum clube ou turma, se lembra? Pois então, aqui, tenho amigos... Eu pertenço a este lugar, mamãe.
— Você tem Sara. Vocês duas são como irmãs.
— Gosto de Sara e sempre vou gostar. Mas nós já não somos... Tão parecidas quanto antes. Nem mesmo nos falamos todos os dias. Ela fez outras amizades e, sinceramente, eu não me dou muito bem com elas.
— Mas... — disse a mãe, agora mais preocupada.
— Mãe, por favor... — insistiu Kylie, percebendo que a mãe já não argumentava com a mesma teimosia. E recorreu a outro trunfo: — Você disse que o novo emprego exigiria viagens frequentes. Como posso ficar segura, com você sempre longe de casa?
— Bem, seu pai tomará o meu lugar.
Kylie sacudiu a cabeça.
— Acha mesmo que vou para a casa dele com aquela garota, quase da minha idade, no pé dele?
— Posso recusar a promoção — sugeriu a mãe. — Você é mais importante para mim do que... Qualquer emprego — e seus olhos se encheram de lágrimas.
Os de Kylie também. Ela não conseguiu se conter. Como parecia ser a coisa certa a fazer naquele momento, ela abraçou a mãe.
— Eu te amo — murmurou Kylie, prolongando o abraço mais apertado que jamais dera à mãe.
A mãe não a repeliu, ao contrário, afagou seu ombro. Não era o abraço mais afetuoso do mundo, mas um começo. Então, para não abusar da sorte, Kylie recuou.
— Sinto muito — sussurrou.
— Por quê? — perguntou a mãe e, no mesmo instante, Kylie percebeu que o rosto dela estava todo borrado. Outra coisa que tinham em comum e que Kylie até então nunca notara.
— Não quero magoar você. E não precisa tomar nenhuma decisão hoje. Vou ficar no acampamento durante todo o verão, mas de fato eu gosto daqui. Além disso, Holiday disse que os alunos poderão ir para casa nos fins de semana. Haverá muitos feriados. E a viagem não dura mais que três horas. Você trabalha fora e também poderá aparecer por aqui.
A mãe suspirou.
— Acontece que você é minha filha, meu amor — passou os dedos pelo rosto de Kylie. — Não quero que seja criada por estranhos.
— Mãe, cai na real. Vou fazer 17 anos dentro de alguns meses. Você já me criou — Kylie hesitou um instante e prosseguiu: — Além disso, você precisa namorar, fazer outras coisas.
A mãe arregalou os olhos.
— Não sei se sou tão corajosa assim.
— Como não? É bonita e, com um guarda-roupa novo, poderia ficar... Uma gata! — a mãe era muito mais bonita que a vagabunda com quem seu pai estava envolvido.
A mãe suspirou de novo.
— Quando foi que minha menininha cresceu?
— Não sei — riu Kylie, recostando-se no cobertor. A mãe, imitando-a, se recostou também. Ficaram ouvindo o murmúrio da água e contemplando o céu azul por entre as nuvens muito brancas. Talvez fosse imaginação de Kylie, mas ela quase podia ouvir dali o barulho da cachoeira.
Por fim, Kylie se levantou e a mãe fez o mesmo.
— Mãe, posso te perguntar uma coisa?
— É claro, querida.
Kylie a olhou bem no fundo dos olhos e disparou:
— Quem é meu verdadeiro pai?

Capítulo 42

Kylie viu a mãe vacilar. Não olhou para a filha, como que tentando decidir qual mentira contaria.
— A verdade, mamãe — insistiu Kylie. — Preciso saber a verdade.
A mãe finalmente olhou para ela.
— Seu... Seu pai te contou?
Que pai?, pensou Kylie, mas não disse nada. Sabia a qual deles a mãe se referia.
Sentiu-se aliviada, o pai tinha conhecimento do fato. Kylie não queria acreditar que a mãe tivesse mentido para ele durante todos aqueles anos. Mas então o alívio desapareceu e ela se perguntou se o divórcio teria algo a ver com aquilo. Teria ele descoberto que não era o pai biológico de Kylie? Seu coração se apertou à ideia de ser a responsável pelo divórcio.
— Não, mãe, eu juro. Ele não me contou nada. Foi apenas um... Pressentimento — isso era verdade. Kylie não tinha provas nem chegara a perguntar nada ao fantasma. Mas a estranha sensação de conhecer Daniel agora fazia sentido. Ele se parecia muito com a garota que ela via no espelho todas as manhãs, quando escovava os dentes: os mesmos olhos azuis, o mesmo cabelo loiro, a mesma estrutura óssea. Até o andar dos dois era muito parecido. E havia também o padrão mental dele. Kylie podia lê-lo em seu próprio cérebro e lembrou-se de que Helen o descrevera. Eram coisas, porém, que no momento não poderia contar à mãe. — Além disso, não me pareço em nada com o papai — preferiu dizer.
Lágrimas corriam pelas faces da mãe.
— Ah, minha filha, sinto muito. Sinto muito mesmo.
— O que aconteceu? — indagou Kylie. — Por favor, me diga que o divórcio não tem nada a ver com isso.
— Não tem — a mãe enxugou as lágrimas e prosseguiu: — Conheci Daniel Brighten na academia de ginástica. Ele trabalhava lá. Era... Nem sei como explicar, mas digamos que era... Charmoso. Quase mágico. Foi amor à primeira vista.
Seus olhos fitaram o nada, como se ela se perdesse nas recordações.
— Ele me convidou para sair. No primeiro encontro, me contou que dentro de três semanas iria para a Guerra do Golfo. Três semanas era tudo o que tínhamos. Sei que isso parece errado e eu a trancaria no quarto se você fizesse a mesma coisa, mas... Já no primeiro encontro, eu sabia que ele era o homem certo. No terceiro, eu... Não havia nada que eu não fizesse por ele, éramos inseparáveis. Quando foi para a guerra, Daniel me garantiu que, na volta, se casaria comigo. Que me apresentaria aos seus pais. Eles moravam em Dallas e, por isso, nunca os conheci — a mãe respirou fundo. — Duas semanas depois de sua partida, descobri que estava grávida. Contei a ele na minha carta seguinte — mordeu o lábio e mais lágrimas lhe correram pelas faces. — Ele deixou de escrever. Pensei... A princípio pensei que era porque não queria a criança — respirou fundo e enxugou o rosto. — Duas semanas depois, li no jornal que Daniel tinha morrido. Nem sei se ele chegou a receber minha carta.
Kylie sentiu um aperto no coração e se lembrou de Daniel tirando o envelope do bolso para levá-lo aos lábios. Seus olhos se encheram de lágrimas e só com muito esforço conteve a vontade de contar à mãe sobre os sonhos, sobre as visitas de Daniel.
A mãe abraçou os joelhos, como se sentisse frio. Kylie sabia que ele estava ali. Estava ao lado de sua mãe, olhando-a com tanto amor nos olhos que as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Kylie.
— Eu só tinha... 18 anos — gemeu a mãe. — Minha mãe teria entendido, mas meu pai era... Talvez até matasse Daniel. Eu e seu pai... Quero dizer, seu padrasto, tínhamos saído algumas vezes na época do colégio. Ele sempre dizia que me amava... — ergueu a cabeça e continuou: — Me telefonou logo depois desses acontecimentos. Eu lhe disse que não era uma boa hora. Mas ele não aceitava um “não” facilmente. Apareceu não escritório e saímos para um café. Contei tudo a ele, não sei bem por quê. Mas precisava de um amigo.
Virou-se para Kylie:
— Ele fez o que a maior parte dos homens não faria. Ajoelhou-se e propôs que nos casássemos o mais rápido possível.
Kylie ficou imaginando o quanto ele devia gostar de sua mãe para lhe fazer essa proposta. Mas o que tinha acontecido com aquele homem? Como poderia ser o mesmo que...
A mãe prosseguiu:
— Só exigiu uma coisa, uma promessa de minha parte: ninguém jamais deveria saber que você não era filha dele — comprimiu de novo os lábios com as mãos. — Seu pai verdadeiro tinha morrido. Eu estava desesperada. Nunca... Nunca pensei que seria tão difícil manter aquela promessa — Kylie segurou a mão dela. — No dia em que você nasceu, foi como se eu visse seu pai de novo. Eram tão parecidos!
Eu sei, pensou Kylie, apertando a mão da mãe. Em seguida, olhou para Daniel Brighten.
— Tenho certeza de que, se ele estivesse vivo, teria te amado muito.
Kylie cerrou os olhos e, dessa vez, as palavras fluíram livremente:
— Acho que ele me ama. E te ama também.
Então sua mãe a envolveu num forte abraço. Não foi rápido, nem estranho. Foi a coisa certa. Continuaram junto ao riacho por mais duas horas. Falando sobre tudo. A mãe contou, em detalhes, seu romance ardente com Daniel. Falaram até da avó.
— No dia do enterro — disse a mãe —, tive de me controlar para não pegar um lenço e tirar aquele batom vermelho horrível que passaram na boca dela.
Kylie riu.
— Aposto que minha avó teria gostado muito disso — nesse momento, sentiu outra brisa passar por ela. Era fria. Mas não fria como a de Daniel. Teve certeza de que sua avó estava por perto. — Ela era especial — murmurou Kylie.
Pouco depois, retomaram o caminho de volta pelo meio do bosque. Seus ombros se tocavam enquanto seguiam em frente. A mãe segurou a mão de Kylie.
— Seu pai — disse ela —, o homem que a criou, gosta de você. E você gosta muito dele, eu sei.
— Tenho o direito de estar com raiva — murmurou Kylie.
— É claro. Eu também estou com raiva dele. Com raiva não, com ódio. No entanto, não acredito que ele a amaria mais se você fosse sua filha legítima. Esta é apenas... Uma crise da meia-idade — deteve o passo. — Ou então, algo que eu não gostaria de admitir.
— O quê?
— Ele me amava, Kylie. No começo, seu pai me amava muito. E eu... Nunca o amei como a Daniel. Jamais lhe disse isso, mas ele sabia. E com o passar do tempo... Que Deus me perdoe, comecei a me recriminar pela promessa que tinha feito. Sempre que olhava para você, via seu verdadeiro pai e sentia que estava mentindo para minha filha. Mentindo para mim mesma. O casamento ia de mal a pior. Nosso relacionamento se deteriorava — agitou a mão, desalentada. — Era fácil acusá-lo, mas, honestamente, eu também tinha culpa. Foi um erro fazer aquela promessa — puxou os cabelos de Kylie para trás, delicadamente. — Ele se mostrou um bom pai. E, por quase todos estes dezesseis anos, um bom marido. Merecia uma esposa que correspondesse ao seu amor. Isso ele nunca teve. Até quando iria suportar essa situação? Talvez, depois de tanto tempo, não tenha conseguido mais lidar com isso.
Kylie reconheceu que a mãe dissera muitas coisas certas. Coisas que ela deveria levar em consideração quando reavaliasse seu relacionamento com o pai.
— Ele poderia ter apenas pedido o divórcio. Não precisava sair por aí com uma garota quase da minha idade.
— Não estou dizendo que ele agiu da forma correta. Ou que é perfeito. Mas ele te ama, querida. Mesmo sem ter essa obrigação.
Antes de partir, a mãe fez Kylie prometer que ligaria assim que pudesse para o pai. Promessa é dívida. Kylie pretendia cumpri-la, mas não hoje. Talvez nem mesmo amanhã.
— Por que os romances têm que ser tão complicados? — desabafou Kylie ao entrar na cabana de Holiday, já tarde da noite.
Havia permanecido em seu quarto desde que a mãe tinha ido embora, pensando no pai, na mãe e em Daniel, comparando a situação deles com o que sentia por Lucas e Derek. Não era a mesma coisa; mas, até certo ponto, talvez fosse.
Holiday ergueu os olhos do papel que tinha sobre a mesa. Se sua expressão dizia alguma coisa, ela estava no mesmo estado de espírito de Kylie. Confusa e magoada. Sem dúvida, tinha se desentendido de novo com Burnett.
— Boa pergunta — comentou Holiday. — Pessoalmente, acho que os deuses só querem, com isso, nos aborrecer.
Kylie se sentou diante da escrivaninha. Recostando-se, Holiday a examinou.
— Você esteve quieta o dia todo. O encontro com sua mãe foi bom?
Kylie decidiu se abrir.
— Daniel Brighten, o fantasma, é meu verdadeiro pai.
Holiday concordou com um aceno de cabeça. Não era aquela a reação que Kylie esperava. Kylie sentiu um nó na garganta.
— Se me disser que sabia disso o tempo todo, vou ficar muito brava com você.
— Eu não sabia — Holiday levantou a mão. — Suspeitava. É um pouco diferente.
— Deveria ter me contado.
— Não é assim que funciona.
— Bem, o jeito que funciona não me agrada — retrucou Kylie.
Holiday suspirou.
— Às vezes, nem a mim.
Calaram-se. Música vinda do refeitório enchia a sala. Estava acontecendo uma festinha ali para comemorar a notícia de que o acampamento não seria fechado e de que se transformaria num internato. Para muitos dos campistas, aquilo era um alívio.
— E de resto está tudo bem? — indagou Holiday.
— Está — respondeu Kylie. Mas logo concluiu que, se não pusesse tudo para fora de uma vez, explodiria. — Não, não está. Gosto de dois garotos. Um foi embora, de modo que, por esse lado, as coisas deveriam ficar mais fáceis, não é? Especialmente porque, no momento, ele deve estar bem longe, fazendo sexo animal com uma loba. Mas não: a história de minha mãe, meu pai e Daniel... Ensinou-me que não é justo gostar de duas pessoas ao mesmo tempo — e Kylie se interrompeu para poder respirar.
— É uma situação difícil — concordou Holiday.
— Ah, e eu ainda não acabei. Como se tudo isso não bastasse, o outro garoto de quem gosto tem o dom de brincar com minhas emoções. Quando estou com ele, sinto que aquilo é bom demais para ser verdade. Então me pergunto se é real. Talvez ele esteja apenas usando suas habilidades para me induzir a pensar que gosto dele.
Holiday franziu a testa.
— Não creio que Derek faça isso.
Kylie sabia que Holiday tinha adivinhado a que ela estava se referindo, mas ouvir seu nome fez seu peito ficar oprimido.
— Além de tudo — prosseguiu Holiday —, Derek é um homem. A lógica dos homens é diferente da nossa.
— Então você concorda; ele pode estar fazendo isso, não é mesmo? — pressionou Kylie.
Holiday parecia insegura.
— Pode, mas... Não acredito que seja do tipo que faça.
— Eu também não. No entanto... — Kylie fechou os olhos. — Me sinto extremamente confusa.
Holiday suspirou de novo.
— Gostaria de poder te dizer que as coisas vão melhorar quando você ficar mais velha. Mas, quando lidamos com homens, existe sempre a possibilidade de nos enganarmos.
— E há ainda o caso de Daniel — continuou Kylie, agitada. — Agora que deveria aparecer para eu perguntar o que na verdade eu sou, ele não colabora. Deve estar jogando golfe ou pôquer com São Pedro e seus colegas no céu. Ou então, e só faltava essa, talvez tenha conhecido alguma garotinha assanhada, como meu pai conheceu, e resolvido me pôr de lado, como meu pai me pôs.
Holiday sorriu.
— Já te passou pela cabeça que talvez Daniel queira que você descubra por si mesma o que você é?
— Ah, mas isso não é justo — disse Kylie. — Seus pais não morreram, deixando você por aí, se matando para descobrir, sozinha, o que era. Você já nasceu sabendo de tudo.
Holiday balançou a cabeça.
— A jornada de cada um é diferente. Por que não faz disso sua próxima?
Kylie se recostou na cadeira.
— Não quero mais saber de buscas. As coisas precisam ser assim tão difíceis?
Holiday não pôde conter o riso.
— O que é fácil não tem graça — suspirou. — Odeio admitir isto, mas se os homens fossem fáceis de entender, provavelmente não seria tão divertido.
— Concordo com você, mas ver sua vida mergulhar no caos não tem nenhuma graça. E é o que vem acontecendo comigo nos dois últimos meses — disse Kylie.
Holiday, com expressão séria, estendeu o braço e segurou a mão de Kylie.
— E eu estou prestes a tornar sua vida ainda mais difícil.
— Como?! — exclamou Kylie, soltando apressadamente a mão.
Holiday franziu a testa e tirou uma carta da gaveta da escrivaninha.
— Eu não ia te mostrar isto, mas... Me lembrei de que você me chamou superprotetora.
Um arrepio de preocupação percorreu o corpo de Kylie.
— Bem, a proteção às vezes é bem-vinda.
— Não. Você estava certa — disse Holiday.
— É de Daniel? — perguntou Kylie, olhando para o envelope.
— Não. De Lucas.
— Me mate de uma vez — gemeu Kylie, simulando bater a cabeça contra o tampo da escrivaninha.
Holiday deu uma risada.
— Talvez não seja tão ruim assim — apertou de novo a mão de Kylie. — Você é uma garota especial, Kylie. Atrevo-me a dizer até que esses dois não são os únicos que pulariam no fogo para chamar sua atenção — levantou-se. — Acho que vou dar uma olhada na festa. Pode ficar aqui o tempo que quiser.
— Holiday? — chamou Kylie, sem se virar.
— Que foi?
Kylie olhou para trás.
— Lucas escreveu para você também?
Holiday sacudiu a cabeça afirmativamente.
— Sabe se... Se Fredericka está com ele?
Holiday fitou-a.
— Está.
— Obrigada.
Kylie voltou-se na cadeira enquanto o som dos passos de Holiday ia aos poucos se confundindo com a música ao longe. Apanhou a carta. Lembrou-se do que sentira ao beijar Derek – calor e segurança, exceto pela pequena dúvida de que ele pudesse estar manipulando suas emoções. Já com Lucas o beijo foi... Mais ardente, mas nada seguro. Talvez tivesse sido mais ardente por isso mesmo. Perigo e paixão costumam andar de mãos dadas.
Kylie passeou os olhos pela carta. Será que Lucas conseguiria dizer alguma coisa que mudasse o fato de ter ido embora, de estar com Fredericka – uma garota com quem ele admitia que estava transando? Uma garota com quem ele também admitia que se preocupava? Não, concluiu Kylie. Lucas não conseguiria dizer nada que mudasse essa situação. Não mais do que seu pai conseguiria mudar o que tinha feito com sua mãe. Ou o que Trey tinha feito com ela.
A música parecia chamá-la. Havia uma festa e ela deveria estar lá. Dobrou a carta e a colocou no bolso. Merecia se divertir um pouco aquela noite. Depois, veria o que Lucas tinha a dizer. Levantou-se e já ia sair quando o frio a envolveu tão rapidamente que ela quase perdeu o fôlego. Uma densa neblina invadiu a sala. Bem, isto é diferente. Mal esse pensamento lhe ocorreu e Kylie constatou que era não só diferente, mas muito diferente. Daniel não tinha nada a ver com aquilo. Tentou se acalmar. Afinal, já estava se acostumando com fantasmas.
— Daniel? — chamou, mas sabendo, no fundo, que não era ele.
Uma parte da neblina se desvaneceu. Uma mulher, com não mais de 30 anos e longos cabelos escuros, surgiu diante de seus olhos. Vestia uma saia branca muito bonita – pelo menos, já tinha sido bonita um dia. O coração de Kylie palpitou forte quando ela viu as manchas de sangue. A mulher a fitava com olhos mortiços, olhos tão cheios de desamparo que Kylie teve vontade de chorar.
— Detenha-o — disse a mulher. — Detenha-o ou ele fará de novo.
— Quem? — perguntou Kylie. — Quem fez isso? — juntou as mãos e desejou ardentemente que Holiday não tivesse saído. — Está procurando Holiday?
A mulher não respondeu. Em vez disso, dissipou-se em meio à neblina. Kylie ficou parada, de braços cruzados sobre o peito para se proteger do frio, enquanto a neblina subia e se dispersava no teto. Lentamente, a temperatura foi voltando ao normal.
— Isso não é justo! — murmurou ela.
— O que não é justo?
Kylie se virou e viu Derek na soleira da porta. Com sua calça jeans desbotada e uma camisa azul clara, parecia... Irresistível. Seguro de si. Kylie notou em seus olhos o carinho que Derek tinha por ela. Decidiu então que, naquela noite, esqueceria. Esqueceria a carta que tinha posto no bolso. Esqueceria o fato de não saber o que era. Esqueceria uma certa mulher com a saia manchada de sangue. Esqueceria que ainda não tinha ido à cachoeira. Esqueceria até mesmo que sua mãe ainda não tinha concordado em matriculá-la na escola. Naquela noite, Kylie só queria ouvir um pouco de música e sentar-se bem pertinho de Derek com os ombros se tocando.
— Vai à festa? — perguntou ela.
— Vim de lá. Estava esperando você.
— Então, vamos — disse Kylie.
Dirigiu-se para o refeitório, seguida de Derek. Deteve-se à entrada e ele quase a atropelou. Com uma sensação de déjà vu, Kylie se deu conta de que exatamente a mesma coisa tinha acontecido com ela quando cruzou aquela porta pela primeira vez. Ela estava com muito medo e com plena certeza de que detestaria aquele lugar. Mas sentia que sua vida logo iria mudar. E estava certa.
— Entramos? — perguntou Derek, encostando-se a ela. A respiração dele aqueceu o pescoço de Kylie.
Ela concordou com a cabeça, mas continuou na porta por mais alguns instantes enquanto dava uma olhada pela sala. Viu Miranda conversando com Perry. O metamorfo ainda não tinha confessado que gostava dela, mas Miranda era paciente. Helen estava sentada ao lado de Jonathon, que jogava uma partida de xadrez com outro vampiro. Della, bebericando um copo de sangue, acompanhava o jogo de pé. Desde que soubera do projeto de transformação do acampamento em internato, a vampira conseguia reprimir um pouco seus acessos de raiva. Não totalmente. Só um pouco.
— Você está bem? — perguntou Derek, inclinando-se para chegar ainda mais perto da orelha de Kylie. Ali ao lado dela, parecia forte e afetuoso.
Exatamente aquilo de que ela precisava no momento.
— Estou — Kylie avistou Holiday sentada com Chris, que tocava violão.
Olhando para o fundo da sala, avistou também Burnett encostado na parede, prestando tanta atenção em Holiday que o mundo poderia acabar e ele nem perceberia. Sim, Holiday era a criptonita de Burnett. Kylie se sentiu plenamente entrosada no ambiente. Virou-se para Derek.
— Estou, sim — repetiu, sorrindo. — estou muito bem.