quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Psicologia do Espírito, de Adenáuer Novaes

TRECHO:
Acertadamente Allan Kardec considerava o ensino dos
espíritos como capaz de nos trazer “a definição dos mais abstratos
problemas da psicologia”2. Pode-se perceber, pela colocação
do Codificador, que a Doutrina Espírita tem muito a elucidar
quanto às questões magnas da alma, que, por enquanto, tem seu
estudo científico permanecido no domínio da Psicologia e ciências
afins. Penetrar nesse campo, bem como naquele que se
depreende dos princípios do Espiritismo não é tarefa fácil, exigindo
coragem e abertura por parte dos estudiosos dos dois conhecimentos.
Mesmo acanhadamente, e sem considerar a realidade espiritual,
a ciência psicológica tem se debruçado sobre a estrutura e
funcionamento do “aparelho psíquico” do ser humano, trazendo
importantes contribuições para sua compreensão. Conquanto a ciência
tenha observado a alma com os paradigmas materialistas,
não se podem desprezar os avanços conquistados, sobretudo por
se tratarem de princípios que nos capacitam à compreensão da
verdadeira natureza do Espírito, enquanto essência criada por Deus.
Porém, é também importante considerar que, enquanto nos
ocupamos em provar as teses espíritas, cujo esforço não tem sido

1 O termo Espírito é empregado com E maiúsculo sempre que se tratar da essência
espiritual e, com e minúsculo, quando me referir ao encarnado ou desencarnado
dotado de perispírito.
2 O Livro dos Espíritos, Conclusões, pág. 490, 76ª Edição, 1995, FEB.

em vão, as ciências psicológicas têm avançado e podem nos oferecer
importantes contributos para a compreensão da natureza
humana no que diz respeito à sua estrutura psíquica. Mesmo considerando
o avanço no campo das questões espirituais não ter
sido muito grande nos meios acadêmicos, é possível vislumbrar a
estrutura psíquica, a qual atende ao Espírito, pela pálida percepção
científica.
Provar as teses espíritas não introduz o Espiritismo nas discussões
dos temas psicológicos clássicos, nem tampouco significa
entender a alma humana. É preciso que nos debrucemos sobre
a natureza íntima do Espírito com o olhar psicológico e espiritual.
Nesse sentido, o Espiritismo deve apresentar-se como ferramenta
especial, tal qual um microscópio eletrônico que faz sua
varredura para encontrar a menor e mais preciosa estrutura elementar,
fazendo sua investigação meticulosa, a qual nos levará à
percepção dos escaninhos do Espírito imortal. Não podemos
limitá-lo, transformando-o em simples objeto de crença dominical,
mas o tornando a lente do microscópio que o próprio Espírito
se utilizará para enxergar-se a si mesmo.
Para penetrar o mundo misterioso e pouco explorado dos
fenômenos psicológicos o Espiritismo deve também se munir de
ferramentas simples que a própria ciência oferece. Deve apropriar-
se dos instrumentos pertinentes à inserção do saber científico
oferecidos pelas academias; deve apresentar protocolos científicos
adequados, experimentos coerentes e que sejam passíveis de
repetição; será preciso avançar além dos limites estabelecidos
com paciência e determinação, sem preconceitos; sem tais ferramentas
o Espiritismo será científico apenas para si mesmo, sem
conseguir alcançar, como parecem desejar seus estudiosos, o
status de Ciência do Espírito.
Não se trata de submeter-se à lógica materialista, mas de
avançar com a própria ciência, orientando-a e levando-a a percepção
do Espírito, pela mudança de seus paradigmas. A questão
não é apenas provar a existência do espírito, mas também
demonstrar que há um equívoco no viés científico, fruto da excessiva
racionalização.
Uma Psicologia do Espírito fará suas observações na intimidade
de seu objeto de estudo, retirando o espesso véu
estruturado a partir de paradigmas materialistas, alcançando além
das comparações realizadas pela visão mecanicista que ainda se
encontra presente nas ciências da alma.
O desafio de apresentar uma Psicologia do Espírito é por
demais audacioso, principalmente considerando os limites da percepção
humana. Porém, é preciso tentar romper as barreiras provocando
o próprio espírito a fim de que decrete sua liberdade e a
ampliação da “visão” sobre si mesmo.
Não se trata de rever o “olhar” humano sobre si mesmo,
mas de buscar um outro ângulo de percepção. Os séculos de
predomínio da “visão”, tendo o corpo como identidade e a matéria
como paradigma, não permitiram que se buscasse mudar o
foco, isto é, deixar de tentar encontrar o espírito na intimidade da
matéria, e sim para se perceber um Espírito que a usa.
O campo de busca não pertence a nenhuma ciência em
particular. Embora entregue inicialmente à Filosofia, posteriormente
à Teologia para, sob a proteção da Ciência, alcançar
modernamente a Medicina e a Psicologia, não está restrito a nenhum
saber específico. O espírito “sopra onde quer”, isto é, as
especulações são livres e devem levar as ciências aos limites do
conhecimento. O campo3 do Espiritismo, pela “visão” mais ampla,
oferece possibilidades de se encontrar uma compreensão mais
essencial do Espírito. Considero que é possível à Ciência chegar
às mesmas conclusões do Espiritismo, porém é necessário que
ela abdique da visão do corpo, qual Tirésias que, mesmo cego,
apresenta suas percepções transcendentes diante dos deuses.
Quando pensei no título deste trabalho imaginei que deveria
alcançar a visão da alma sobre a própria alma, isto é, a visão do

3 A palavra campo aqui é empregada no sentido amplo que contém todos os paradigmas
do Espiritismo bem como tudo aquilo que nele se estuda e se aplica.

Espírito sobre si mesmo. Porém, a palavra psicologia pode, para
muitos, conter um viés comportamental e canhestro que enfeixa
suas definições dentro dos limites do saber acadêmico. Talvez seja
melhor o leitor entender que o livro trata do Espírito enquanto ser,
tal como foi criado e como se desenvolve. Pretendo que a palavra
psicologia deva ser compreendida como um campo que contém
o funcionamento e a estrutura do Espírito. A preocupação também
é não confundir Espírito com espírito; este último é a personalidade
encarnada ou desencarnada que possui corpo seja material
ou semimaterial e o primeiro, o ser simples e ignorante, individualizado,
criado por Deus à sua imagem e semelhança e que se
torna espírito na medida em que se acopla a matéria.
Cuidei para que o livro não se tornasse uma proposta de
análise metafísica e filosófica sobre o Espírito à moda dos gregos,
mas uma concepção mais específica sobre o ser humano enquanto
singularidade. É necessário, porém, esclarecer que, em que
pese meu cuidado em não enviesar o livro pela matriz psicológica,
seu conteúdo é apresentado a partir de uma perspectiva simultaneamente
espiritual e psíquica, pelo que peço desculpas ao
leitor. Portanto a análise aqui é parcial e o leitor poderá perceber
que certos temas, propositadamente, não são tratados em sua
complexidade e abrangência costumeiras. Nesse caso aconselho
que recorram à literatura clássica que a eles se referem.
Não me considero um escritor; escrevo, mas não o faço
por hábito ou por profissionalismo; não tenho essa virtude; na realidade
o faço pelo desejo de dizer algo; pela vontade consciente
de passar algumas idéias sobre a Vida; é como querer transmitir
uma mensagem de que se acredita ser portador. Por esses motivos
não possuo a linguagem característica dos escritores, nem as construções
estilísticas necessárias. Desculpe-me novamente o leitor
se, por vezes, não conseguir fazer-me entendido. Às vezes tenho
dificuldades em escrever o que penso, mas espero ter superado
qualquer deficiência de conhecimentos gramaticais e literários.
Busquei escapar às tentativas pessoais de construir uma
arquitetura da psiquê, por considerar que esse esforço poderia
enrijecer o que é, por natureza, flexível e, principalmente, virtual.
Embora não haja limites para o saber, compreendo que o
há para minha capacidade de entender o Universo, a Vida e o
Espírito. Quanto mais nos debruçarmos sobre nós mesmos, mais
cedo encontraremos o deus que mora em nós e ao Criador da
Vida. Por esse motivo não alcancei a totalidade da compreensão
sobre o significado essencial do Espírito. Espero que o leitor busque
em outros livros o aprofundamento da questão além de entender-
me a ousadia.
A história da humanidade tem sido exclusivamente contada a
partir das realizações externas do ser humano. Seus feitos externos
são exaltados em todos os níveis e de várias formas distintas. A
história da humanidade é a história da evolução do Espírito e esta
abrange também suas conquistas interiores, seu amadurecimento nas
relações, sua compreensão sobre si mesmo, sua capacidade de entender-
se, sua compreensão da Vida e pela exploração do Universo
à sua volta. Não podemos desprezar essa outra parte nem achar
que a civilização cresceu e se desenvolveu por que a tecnologia alcançou
horizontes largos em pouco tempo. Não podemos esquecer
que o ser humano que fabrica o chip ainda é o mesmo que mata seu
semelhante por motivos fúteis. Não há necessariamente evolução
interna só porque a houve externamente. Certamente que a civilização
está caminhando para o encontro com o espírito, tendo em vista
o esgotamento temporário de sua procura externa. Os insucessos
externos juntamente com as vitórias a farão voltar-se para si mesmo.
É necessário avançarmos na direção do Espírito e na busca
da superação dos próprios limites de percepção. Entender-se
Espírito é tão ou mais importante quanto perceber o espírito.
Independentemente das conceituações expressas ao longo
da história do ser humano e das definições que foram dadas sobre
ele mesmo, há que se considerar a maravilha que é sua realidade e
a beleza de sua existência. Acima de tudo e de todas as concepções
sobre o ser humano, ele deve se considerar a alma de Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário