quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Portugal, Hoje - O Medo de Existir - José Gil

Portugal, Hoje: O Medo de Existir, é uma obra que desconhecia e que me foi aqui apresentada neste nosso cantinho livriano pela mui estimada colega livriana Lisa.
Escrito pelo filósofo José Gil, tido como um dos 25 grandes pensadores mundiais da actualidade, logo e obrigatoriamente uma figura ou um intelectual de relevo da nossa cultura.
O autor neste livro procura analisar a alma lusitana e toda a actual e antiga conjuntura que levaram o nosso país e as nossas gentes ao actual e miserável estado de pessimismo em que o país está atolado (para não dizer outra coisa). Uma análise também ela extremamente pessimista que ressalva apenas os traços mais negativos da nossa forma de ser e da forma como a democracia foi erigida e mantida.
Embora José Gil tenha dificuldade em classificar o género deste livro, classificando-o mesmo como “indefinido”, eu não tenho quaisquer dúvidas em o classificar como um Ensaio, porque simplesmente este é um Ensaio ou, na pior das hipóteses, uma espécie de Ensaio sobre os males e os vícios que dominam os portugueses, a sua herança cultural e a forma como essa herança foi aproveitada e consagrada pelo regime salazarista, e são precisamente estes dois últimos pontos que, quanto a mim, destroem toda a abordagem de José Gil. Mas vamos por partes. J
osé Gil desde o início refere as más características dos portugueses e a forma como se identifica essa forma de ser: irresponsável; invejoso; dado à inércia; medroso, quase cobarde; sem motivação e auto-estima; resistente à lei; com a mania que é “chico-esperto”, levando essa faceta directa e indirectamente à corrupção.
Correcto, digo eu e dirão muitos, no entanto e tendo o cuidado de analisar o livro como um todo, no final do mesmo constatei que o discurso de Gil assenta essencialmente apenas e só nisso, num desenvolver de características tão conhecidas, sem contudo dar qualquer tipo de respostas nem apresentar alternativas para que seja possível uma mudança. Esta é a minha maior crítica. O que o autor faz é essencialmente o seguinte: "os portugueses são uns preguiçosos, não fazem nenhum, são uns despreocupados, estão-se a borrifar para os outros, etc". E porquê que os portugueses são assim? "Ah coisa e tal, salazarismo práqui, salazarismo práli...". Ou seja, ele não dá nenhuma explicação plausível.
A única tentativa de explicação e por acaso essa tentativa desapontou-me muito, é dada mediante uma excessiva colagem do Portugal de hoje ao Portugal de 1974 acabado de sair da ditadura, afirmando vezes sem conta ou deixando perceber claramente que nada mudou desde esses tempos, nada se ”inscreveu”, que inclusive os portugueses continuam a viver com um medo herdado do salazarismo...
Não concordo! Discordo em absoluto!
Não querendo entrar aqui em dissertações ou em discursos que contraponham o que José Gil escreve, penso que e ao contrário do que ele afirma, os portugueses não são como são devido aos 45 anos de ditadura, pese embora que também tenham tido influência. Ele passa praticamente todo o livro a “bater na mesma tecla”, a sublinhar o papel negativo do regime salazarista como principal e único culpado deste actual estado de coisas. Não concordo! Admito que ainda existem muitos vícios que sobreviveram desse regime, mas não concordo que os portugueses são amorfos, medrosos, cobardes, invejosos e irresponsáveis devido apenas a esse regime. É Histórico e Gil esqueceu-se de analisar a História, não faltam relatos desses comportamentos fatalistas, invejosos, brejeiros, “chico-esperto” em vários dos nossos escritores do séc. XVIII e XIX. Camões narra um pouco desses comportamentos no “Lusíadas” e as obras de Eça e Camilo são também um óptimo mostruário.
Salazar de facto aproveitou essas características para implantar o medo e a repressão, mas e passados mais de 30 anos da Revolução dos Cravos, nós não somos como somos devido apenas a esse regime, nós sempre fomos assim. Célebre a frase de Júlio César no ano 100 A.C. quando dizia: “nos confins da península existe um povo (lusitanos) que não se governa nem se deixa governar...
Ele refere também e não são poucas as vezes que o faz, das não “inscrições” em Portugal. Tudo é constantemente adiado.
É verdade, pelo menos o do constantemente adiado, o de deixar andar, no entanto e no contexto onde ele coloca a expressão “inscrição”, para mim é aberrante essa análise.
Será que em mais de 30 anos de democracia nada mudou?
Obviamente que essa democracia foi mal construída, análise que Gil efectua, tocando nalgumas feridas, mas que diabo, estamos nas mesmas condições que estávamos em 1974? Nada mudou?
Penso que bem ou mal, muita coisa se fez nesse país que merece ficar ”inscrito” na nossa sociedade e na nossa História, mesmo afirmando ele que ”Portugal conhece uma democracia com baixo grau de cidadania e liberdade”, afirmação essa que deriva, mais uma vez de uma atribuição de culpas ao antigo regime, eu questiono: Mas isso só acontece em Portugal? Esse alheamento da vida política, esse afastamento só se verifica em Portugal? Nos outros países também não se verifica o mesmo? E o mais decepcionante é que José Gil faz essas declarações, mas nunca efectua nenhuma análise profunda do porquê, dos factores e razões que levaram a esse alheamento e afastamento. J
osé Gil vai assim colocando tudo numa condição extremamente pessimista. Embora concorde com parte dessas constatações, não concordo com maior parte delas, sobretudo o modo alarmista como ele as coloca e por serem meras constatações.
Considero de facto que ele tem razão em muitas criticas que efectua, no entanto ele coloca as “coisas” como incontornáveis, como se fosse impossível a alteração dessas situações. Mas não será legítimo exigir mais a um pensador desta craveira do que constatações tão simplistas?
Para além de tudo o que refiro atrás, ele entra em profundas contradições, pois é célere a criticar o povo pela não ”inscrição” e ele, com este livro, faz exactamente isso (queixa-se, queixa-se), demonstrando também ser um mau conhecedor da História Universal dos povos e com pouca visão e perspectiva do futuro.
Por outro lado e ligado ao que afirmei no parágrafo atrás, é arrepiante a forma como ele se esquece de analisar e de incluir a nossa História, afirmando mesmo sermos um povo saudosista mas com poucas referências ou lembranças da História, algo que ele próprio demonstra no livro, pois para ele existe uma massa de gentes encravada num pequeno território à beira de um precipício.
Portugal é apenas isso?
Não teria ele arranjado melhor explicação (praticamente não dá nenhuma) para a nossa forma de ser, se, por exemplo se desse ao trabalho de analisar os Descobrimentos e o facto de ter sido Portugal uma potência europeia e mundial durante séculos?
Em suma: José Gil efectua uma análise ao não desenvolvimento democrático, social, mental e cultural do país e das fracas capacidades dos portugueses.
No entanto é uma análise vazia, sem conteúdo, pouco ou nada profunda, pessimista, onde ele se limita ao simples desfilar de defeitos sem nunca evidenciar as virtudes e onde jamais apresenta soluções ou alternativas. Caí assim ele próprio em contradição com as críticas que realiza, pois parece tomar a atitude de um iluminado, quando e depois de tudo exprimido, este livro é extremamente populista, acabando assim por ele próprio se ”inscrever” num grupo que poderemos denominar de ”Vencidos da Vida” (a frase não é minha), grupo esse que me recuso a pertencer.
Conceitos abstractos, não explicados e por vezes demasiados densos, acabam por dominar grande parte do livro, tornando-o de ora fácil, ora de difícil leitura, caindo também em blocos extremamente filósofos e de sentido dúbio.
A mim decepcionou-me porque estava à espera de uma análise mais cuidada de alguém tão respeitado e tido em todo o mundo, uma análise às razões históricas e sociais que levaram os portugueses a serem realmente um povo tão amorfo. no entanto recomendo, porque José Gil foca alguns dos nossos problemas e defeitos, o que para muitos pode ser um despertar proveitoso para esses mesmos problemas e defeitos, talvez uma tomada de consciência ou um inteirar dos reais problemas deste país.

Museu Britânico Ainda Vem Abaixo (O) - David Lodge

Definitivamente não vou “á bola” com David Lodge. Há tempos li a “Terapia”, livro mundialmente conhecido e reconhecido como sendo um livro hilariante e não sei que mais, mas o certo é que não dei mais de 3 estrelas e por algumas gargalhadas que me arrancou.
Neste "O Museu Britânico ainda vem abaixo”, enfim, tem menos qualidade do que “Terapia”.
A história é a seguinte:
Anos 60, um jovem casal, que segue direitinho os mandamentos do catolicismo, vive um dilema ou poderemos dizer um drama: Não consegue ter uma vida sexual feliz e agradável. E tudo porquê? Porque a igreja é contra o preservativo e outros métodos contraceptivos e, vai dai, o casal só tem relações em determinados dias e dependente da temperatura da mulher, pois há que ter a certeza que não está na fase da ovulação.
Para piorar o cenário, descobrem ou desconfiam que, depois de uma farra em casa de uns amigos e depois de chegar a casa, tiveram relações sexuais. No entanto não têm a certeza, logo e se tiveram, quer dizer que correm o perigo de ela estar novamente grávida. Resta acrescentar que já têm 3 filhos e uma hipotética gravidez iria alterar, e muito, a estabilidade familiar.
Ora bem, não pretendo escrever uma opinião longa porque simplesmente este livro não a merece, no entanto tentarei efectuar uma pequena análise ao livro.
Este livro é acima de tudo uma “boca” de Lodge às regras arcaicas do catolicismo.
Logo na introdução, o próprio Lodge vai uma breve descrição do que era a vida dos casais católicos nos anos 60, casais esses onde ele e a mulher se incluíam. Logo e embora ele desminta, parece-me que este livro é mais uma dissertação das suas angustias enquanto jovem cheio de força e pujança. A mim parece-me.
Depois e embora este seja o problema principal e aquele onde gira toda a história, ele vai descrevendo o seu dia, aliás, descreve o dia do personagem e aí, situações mais ridículas que hilariantes sucedem a um ritmo louco e, na minha óptica, algo forçado. De notar e isso foi algo que me agradou, que toda a acção se passa num só dia, um pouco ao estilo de “Ulisses” de Joyce, mas é só no estilo porque no jeito, não tem nada a ver.
E pronto, resumidamente é isso.
Eles com medo de uma gravidez indesejada, com uma vontade louca de ter sexo e não o poderem porque senão, gravidez certa. Ele no trabalho, no tal Museu Britânico, onde tem como trabalho ler livros… é verdade. E mais umas coisitas práqui, e umas coisitas práli.
Sinceramente não gostei. Na altura em que foi escrito deve ter sido mesmo um sucesso, mas nos tempos que correm, não só o estilo como os motivos, estão completamente ultrapassados, ou será que ainda algum casal, mesmo fanaticamente católico, não usa métodos contraceptivos?

Druidas - Morgan Llymellyn

Este romance narra a história de Ainvar, Supremo Druida de uma das muitas tribos gaulesas e Senhor dos Bosques. Ainvar, enquanto Supremo Druida, liga-se a Vercingetorix, rei de uma das tribos e senhor de uma força física e de um carácter notável, que o levará a reunir esforços no sentido de unir as desorganizadas tribos gaulesas para combaterem um novo e fulminante inimigo que, aos poucos, se ia instalando em toda a Gália, sem que os seus habitantes se dessem conta do grau de influência que esses estrangeiros iam introduzindo no seu modo de vida: os Romanos.
Assim e quanto a mim, o principal personagem, ou se quiserem, o principal tema, é a invasão de Roma e a derrocada da Gália que, habitada por inúmeras tribos incapazes de se unirem em prol de um objectivo comum, algumas delas inclusive preferiam aliar-se a Roma, acabam por se “deixar” invadir sem apelo nem agravo, dando a luta possivel.
Logo este livro descreve a Gália antes da invasão, a vida pacífica das suas tribos que praticavam uma religião pagã, religião que tinha como seus sacerdotes os druidas, homens que se organizavam por classes, todos eles em sintonia com a natureza, donos de conhecimentos profundo e secretos, assim como secretos eram os seus rituais.
Os druidas eram assim vistos como os sacerdotes das tribos, logo, eram dos homens mais importantes e temidos das tribos.
Lhywelyn tenta então explorar essa relação entre os druidas e a natureza, conseguindo misturar toda essa relação cheia de mitos com a forma desordenada como os gauleses viam e levavam a vida, sobretudo a forma desordenada como actuavam na guerra, ainda mais quando pela frente tinham o exercito romano, imaginem o contraste. Achei curioso toda esta simbiose, pois é um livro que tão depressa nos coloca no mundo da magia, como logo de seguida, nos faz entrar em momentos terríveis.
Lhywelyn vai assim narrando a forma descontraída como os gauleses viviam e interessante, a forma como os gauleses viram a chegada dos romanos.
Eu gostei do livro, mas houve alguns factos que não apreciei, sobretudo alguns contra-sensos, quer ao nível do enredo, quer ao nível Histórico.
O estilo e o ritmo narrativo também não é o mais agradável. Em muitas situações do livro nota-se alguma pressa da escritora em resolver certos assuntos, no entanto e noutros, a história arrasta-se. Enfim, não existe uma grande coerência narrativa ao longo do livro.
Outro facto negativo que também vai de encontro ao já afirmado, prende-se com a pouca empatia com os personagens. A ligação é muito precária, nunca me senti especialmente ligado a nenhum deles porque a própria autora não tem essa capacidade de nos fazer vibrar e/ou sofrer com ou por eles.
Curioso também o pouco cuidado com as tradições celtas. Existem factos que o narrador afirma não serem costumes para, páginas depois, já descrever situações que põem tudo o que anteriormente afirmou em causa. Será que a escritora não reparou nisso quando reviu o livro?
Enfim, um livro que tenta e em parte até consegue, descrever a invasão romana e os costumes e tradições das tribos da Gália. No entanto a narração não está bem conseguida, raramente consegue agarrar o leitor.
Um romance que se lê bem, é agradável, mas enquanto romance histórico, é algo fraco.

Ataque e Defesa astral

« Ataque e defesa astral » ( Marcelo Ramos Motta )
Thelema publicações. Ensinamentos sobre defesa astral, como actuam ataques astrais,
Ensinamentos da O.T.O ( Ordo templi Orientis ) .
Durante mais de 40 anos esta publicação foi proibida no Brasil, por ocultistas, que queriam manter em sigilo como funcionam essas tecnicas de ataque astral.
O livro explica como reconhecer os sintomas de ataque astral e a defender-se de feitiços, hipnotismos, sugestão, ataque astral, como criar um circulo de protecção no seu quarto, ou proteger ambientes contra energias negativas, etc.
O livro ensina como reagir caso voce seja alvo de alguma entidade astral, etc.

Documento word, comprimido em rar : 277 kb. .. 153 páginas.

defesa astral

link alternativo ( mega upload )

Cofrinhos e Aviões de Papel

No segundo dia, a criançada foi correndo pedir umas moedinhas para os pais. Queriam rechear seus cofres coloridos. No terceiro dia, a brincadeira rolou solta... a turma colocou os papéis para voar. Fizemos um modelo de helicóptero, o Interceptor e o Quadrado, aviões de formas e vôos diferentes. Foi o dia mais divertido. Todos brincamos a valer durante e depois da oficina.



Fotos das oficinas na Fnac Brasília - Parte I

A seguir, fotos das oficinas que realizamos na Fnac em janeiro. Foram cinco dias com a casa cheia de crianças criativas e pais corujas. Eu e Vilma, as "pistoleiras de cola quente" acima, começamos a semana com a oficina de fantoches. Depois, posto as outras fotos. Espero que todos tenham gostado.



terça-feira, 29 de janeiro de 2008

MANUEL DA MAIA

Espírito iluminista e, ao mesmo tempo, profundamente religioso, Manuel da Maia é uma das figuras capitais do século XVIII português.
Engenheiro de profissão, dedicou-se a uma multiplicidade de actividades, característica dos homens das Luzes. Organizou as fortificações marítimas de Lisboa, na iminência da invasão inglesa; superintendeu a edificação de outras fortificações, um pouco por todo o país; traduziu diversas obras de construção militar; desenhou mapas geográficos e militares.
A sua capacidade de trabalho é lendária. Tal como não deixava ninguém do seu tempo indiferente, a promessa de entregar aos pobres um terço dos seus ganhos e o facto de, aos 12 anos, ter feito voto de castidade. Alcançou as maiores honras, que culminou com a designação de Mestre de Campo General e a de Engenheiro-mor do reino, em 1758. No ano seguinte recebeu o grau de Cavaleito da Ordem de Cristo.
A importância do seu labor foi reconhecida quando, indigitado Guarda-mor da Torre do Tombo, salvou o arquivo na sequênciado terramoto de 1755. Foram também as consequências do terramoto que exigiram o melhor do septuagenário Manuel da Maia. que se mostrou incansável a dirigir a inventariação de propriedades, a remoção de escombros, a protecção sanitária. Mas o seu papel é decisivo na reconstrução da cidade.

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Roberto Bolano - Noturno do Chile

Título: NOTURNO DO CHILE
Autor: Roberto Bolano
Gênero: Romance
Editora: Cia. das Letras

Este é um denso monólogo constituído de apenas dois parágrafos: o primeiro ocupa quase todo o livro, e o segundo é uma frase de apenas oito palavras. O Padre Sebastián Urrutia Lacroix, o narrador repassa de modo febril sua vida de poeta e crítico literário \"comedido e conciliador\", procurando uma esposa para as suas inquietações que o assaltam na proximidade da morte.

Livro Inédito

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Walnice Nogueira Galvão - Folha Explica Guimarães Rosa

Título: FOLHA EXPLICA GUIMARÃES ROSA
Autor: Walnice Nogueira Galvão
Gênero: Letras
Editora: Publifolha

Na obra, assinada por Walnice Nogueira Galvão, professora livre-docente de literatura na USP, o leitor descobre e entende por que "Grande Sertão - Veredas" é considerado o principal romance do escritor, livro que transporta nossa língua para um plano de invenção nunca antes alcançado. Juntamente com "Sagarana" e "Corpo de Baile", "Grande Sertão - Veredas" é uma das obras que definem o povo brasileiro e ensinam a pensar o país por outro viés, explica Walnice Nogueira. Completa o livro uma bibliografia de e sobre o autor, em que se procurou selecionar o que é, de fato, tanto indispensável quanto ilustrativo do amplo espectro teórico e crítico que "Grande Sertão" suscitou.

Livro Inédito

A Sétima Porta

A Sétima Porta é o último romance de Richard Zimler, autor do livro O último cabalista de Lisboa, que narra a história de Sophie Riedesel, uma jovem berlinense confrontada com a década de 30 do século XX num país onde Hitler sobe ao poder e de Isaac Zarco, descendente do cabalista Berequias Zarco retratado no primeiro romance de Zimler.
Zimler, dá mais uma vez vida à família Zarco e à história do judaísmo nos seus reiterados encontros com a morte e a destruição.
A década de trinta alemã é vista pelos olhos de uma jovem sonhadora, inteligente e ambiciosa, Sophie Riedesel, que luta pela e contra a sua família que vê desfazer-se ao longo da narrativa, desde à ascensão de Hitler ao poder, ao inicio da purificação da raça que termina com o epíteto da segunda guerra mundial.
É a história de judeus, de deficientes e de fenómenos de circo, do cabalismo na figura de Isaac Zarco e ao mesmo tempo a história de um povo – o alemão – confrontado com uma crise de esquizofrenia colectiva que incide mesmo sobre os mais moderados.
A Sétima Porta, em nossa opinião, é acima de tudo uma história de amor. O amor de uma irmã pelo irmão, de uma filha pela mãe e pelo pai – apesar da variável intensidade desta relação – de uma amiga pelos seus amigos, de uma jovem pelo seu namorado, de uma mulher por um homem e de uma mãe pelo filho. É também uma história que fica indelevelmente marcada pela relação de Sophie com o seu irmão Hansi – uma vítima nas mãos de um regime eugénico – numa profunda sensibilidade artística que se reflecte nesta relação entre irmãos na pintura de Sophie e na complacência de Hansi.
Zimler, que ao longo dos seus antigos romances nos habituou a uma escrita apaixonante, carregada de simbolismo e amor não desilude, apresentando-se A Sétima Porta como um romance histórico com uma panóplia de personagens carregadas de vida e admiravelmente desenvolvidas, de cenários realistas que incitam a uma leitura escorreita e vibrante e de enorme suspense que nos deixa presos à leitura.
Como um grande romance que é, A Sétima Porta deixa marcas. Vivemos a alegria, a felicidade, o orgulho, a tristeza, mas acima de tudo, vivemos a angústia de Sophie como se fosse a nossa.
Não há bons romances sem que sintamos na nossa vida a história das personagens. Sentimos ao longo das mais de 650 páginas do livro – que não devem assustar, porque são deliciosas – o confronto que existe entre os valores de Sophie e os nossos, mas acima de tudo, conseguimos sentir os pontos de contacto que existem entre a sua história e as nossas recordações.
Face ao que foi escrito, é uma obra que aconselhamos vivamente a todos os apaixonados pela boa literatura. Apostamos que não se vão arrepender.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Autógrafos e reconhecimento...

Deu na Folha de São Paulo deste domingo, 27 de janeiro.

A era dos neobaixinhos
Sucesso da dupla Palavra Cantada, de música infantil educativa, e fracasso de Xuxa na TV e no cinema parecem ser um sinal de que os pais hoje buscam produtos culturais de melhor qualidade para as crianças

LAURA MATTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Super Xuxa luta contra o baixo astral: a apresentadora perdeu seu programa diário na Globo e camela para chegar a 300 mil espectadores no cinema, resultado chocho para quem contava bilheteria em milhão. A rainha dos baixinhos não manda no reino dos neobaixinhos, filhos de uma geração politicamente correta, que vêem programa educativo na TV paga, cantam música de qualidade, ouvem falar sobre aquecimento global, aprendem a reciclar lixo e até lêem poesia.
Nessa nova era -em que pais parecem estar mais preocupados com o consumo cultural das crianças- nomes como o duo musical Palavra Cantada, antes restritos a filhos de "moderninhos" e "intelectuais", ganham o grande público.
A dupla mescla a formação clássica de Sandra Peres, 44, e a popular de Paulo Tatit, 52, e tem a proposta de criar canções infantis de qualidade. Começou em 1994 vendendo CDs pelo telefone e correio. Em um esquema totalmente independente, sem o apoio de uma grande gravadora, atingiu a marca de 14 títulos lançados com 1,4 milhão de cópias vendidas e prepara a turnê do CD "Carnaval", que inclui shows no litoral e no Citibank Hall de São Paulo, em 2 e 3 de fevereiro. O álbum tem a participação de Arnaldo Antunes e seu filho, Bras, e de Mônica Salmaso. Para este ano, a dupla negocia um programa de TV com um canal fechado e um aberto.
"O sucesso do Palavra Cantada reflete uma tendência de mudança na concepção da infância", opina a educadora Gisela Wajskop, diretora do Instituto Superior de Educação de São Paulo - Singularidades.
Ela conta que foi convidada a dar uma palestra na Globo, anos atrás, quando a emissora acreditou que poderia transformar o programa da Xuxa em algo educativo. "O problema é que a Xuxa nunca teve essa imagem", analisa Wajskop.
Para a educadora, os pais, "que antes deixavam os filhos dançar na boquinha da garrafa, começaram a ficar mais críticos". "Isso tem a ver também com a melhoria da escolaridade no país e com os resultados negativos da geração cujos pais delegaram a educação a babás, enquanto trabalhavam para ganhar mais, achando que assim os filhos seriam felizes", afirma.
Em sua opinião, "a classe média passou a intuir que o consumo de produtos culturais mais educativos poderia melhorar a formação dos filhos, raciocínio antes mais restrito à elite".
Wajskop também aponta a "pressão da mídia" e iniciativas como a do Palavra Cantada. "Eles insistiram na marginalidade e na qualidade e criaram um espaço antes inexistente."
Tatit conta que ainda hoje, apesar do sucesso, o "dinheiro é muito apertado" e é preciso correr atrás de patrocinadores para CDs e shows. Peres lembra que tudo ficou mais difícil com a pirataria -sim, pais politicamente corretos também copiam CDs no computador.
"Nós mesmos produzimos e gravamos o nosso CD, e o Palavra Cantada só continua a existir em razão da venda dos discos. O show mal se paga."

Som das loiras
Apesar das dificuldades, Peres afirma que hoje há um mercado de música para criança, o que nem existia quando eles começaram. "A música infantil era a que chegava pela TV, cantada pelas apresentadoras. Hoje tem muita gente fazendo música infantil de qualidade."
Quem também faz sucesso nesse mercado é Hélio Ziskind, autor de sucessos do programa "Cocoricó", da Cultura, que iniciou a carreira ao lado de Tatit, no grupo alternativo Rumo.
Para Tatit, o Palavra Cantada já atingiu o topo dentro de um esquema independente. "Sabemos que, para crescer mais, precisamos ir para a televisão." Canções como "Sopa" e "Rato" só chegaram à periferia, no início desta década, graças à veiculação de clipes do Palavra Cantada na TV Cultura.
Na opinião de Peres, as crianças gostam "do humor e da poesia das músicas", que não devem ter "intenção de criar modismos". Tatit diz que, ao compor, preocupa-se "menos com o que vai dizer e mais com como dirá". "Busco construir uma sintaxe que as convença."
Além disso, o que ajudou foi a parceria com escolas, que usam as músicas da dupla nas aulas. "Os professores são a nossa rádio. As crianças chegam em casa cantando, e os pais vão atrás de nossos CDs", afirma Peres.
As escolas têm mesmo sido uma das responsáveis pelo surgimento dos neobaixinhos. "Os educadores percebem cada vez mais a importância de preservar a cultura, o folclore, de resgatar cantigas de roda e brincadeiras antigas", diz Silvia Amaral, conselheira da Associação Brasileira de Psicopedagogia.
Ela faz duas importantes ressalvas: "Esse movimento ainda não é tão intenso na rede pública e nem todos os pais têm essa preocupação com qualidade".


Comentário

Crianças não rejeitam boas novidades

BIA ABRAMO
COLUNISTA DA FOLHA

Se há algo de arrogância quando se fazem generalizações sobre o gosto do público, no caso específico das crianças, há uma verdadeira incompreensão. O "gosto" delas é mais misterioso e mais flexível do que se imagina.
Na TV, qualquer coisa que pareça minimamente colorido, agitado e barulhento atrai a atenção e é capaz de grudá-las na frente do aparelho. Isso explica, em parte, o longo reinado das apresentadoras loiras, de modos sedutores e merchandising pesado.
Mas não deixa de ser verdade que programas com teor educativo mais bem elaborado, maior sofisticação visual e narrativa e referências culturais mais amplas também podem funcionar quando são oferecidos. Todas as vezes em que a TV apostou em atrações nessa linha, como a TV Cultura nos anos 80 e 90, a resposta foi melhor do que se esperava.
Isso porque crianças gostam de conhecer coisas novas e não rejeitam a priori, como fazem muitos adultos, aquilo que é mais desafiador.
O sucesso mais ou menos surpreendente da turma do "Cocoricó" e do grupo Palavra Cantada, bem como do canal Discovery Kids, por exemplo, apontam para uma nova onda de entretenimento infantil mais "inteligente" que, espera-se, dure mais do que império de Xuxa.

Enquanto isso...

Recebi o convite virtual para o lançamento do novo CD do palavra cantada e lá está escrito: Autógrafos apenas no CD "Carnaval Palavra Cantada"... Nossos heróis musicais estarão cansados dos fãs com os CDs antigos? Só interessa vender o CD novo? E quem adora o grupo mas não pode comprar o CD naquele dia?

A Fnac, aqui em Brasília, faz o seguinte: quem comprou o produto em questão (livro ou CD) na loja, tem o direito de receber os autógrafos primeiro. Outras pessoas recebem os autógrafos logo depois.

Eu estou longe de fazer o sucesso da dupla - longe mesmo - mas espero continuar com tempo e paciência para atender aos baixinhos que pedem autógrafos em seus cadernos, mãos, livros e folhas soltas depois das apresentações que faço. O artista deve estar acima do produto. Sempre!!!

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Franz Kafka - O Processo

Título: O PROCESSO
Autor: Franz Kafka
Gênero: Romance

O Processo (Alemão: Der Prozess) é um romance escrito pelo escritor checo Franz Kafka, e conta a estória de Josef K., personagem que acorda certa manhã, e, sem motivos sabidos, é preso e sujeito a longo e incompreensível processo por um crime não revelado. Segundo Max Brod, amigo pessoal de Kafka, o livro permaneceu inacabado como estava quando Kafka lhe entregou os escritos, em 1920. Após sua morte, Brod editou O Processo pelo que ele julgou um romance coerente e o publicou em 1925.

Livro Reeditado

RELANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Jacqueline Susann - O Vale das Bonecas

Título: O VALE DAS BONECAS
Autor: Jacqueline Susann
Gênero: Romance
Editora: Nova Cultural

Publicado em 1966, chocou a bem-comportada sociedade norte-americana ao retratar o universo feminino durante os anos de 1960. Três mulheres vão a Nova York em busca do glamour do show biz. Convivem com os bastidores do mundo dos espetáculos, sempre regados a muito uísque e estimulantes. O livro foi adaptado para o cinema em 1967 pelo diretor Mark Robson.

Livro Reeditado

sábado, 26 de janeiro de 2008

Boa Esperança, número 13.

Vivi a meninice numa rua chamada Boa Esperança. Era asfaltada, com oito casas de cada lado, todas com grades baixas. Minha casa era a de número 13. Boa Esperança, número 13. A sorte me acompanha desde aquele tempo. Mas o grande privilégio naquele começo dos anos 80 era que a nossa rua tinha uma turma. Oito garotos davam vida àquele espaço geográfico: Riva, Delane, Sílvio e eu nos juntávamos aos mais novos Márcio, Delile e Roosevelt... ah, o pequeno Dalmo se metia vez em quando nas brincadeiras. A grade das casas, que fazia as vezes de muro da frente, formada por barras de ferro, faziam um barulho estrondoso quando brincávamos de gol a gol e alguém errava a meta. Mas o esporte preferido da turma, que levava outros amigos para a rua em intermináveis campeonatos, era o Bete. Começava às oito da manhã e não tinha hora para acabar.
Bete é um jogo inspirado no basebol. São duas duplas. Uma no ataque, outra na defesa. Quem defende usa tacos. Dois círculos de giz com uns 60 centímetros de diâmetro a quinze, vinte passos de distância uma da outra, delimita a área onde a defesa deve estar com o taco em contato com o solo. A dupla de ataque joga uma pequena bola de borracha – ou de tênis – que deve derrubar um tripé (casinha) feito com gravetos que fica no interior dos círculos. Só a dupla que está na defesa faz pontos. Para isso deve rebater a bola e a partir daí cruzar o espaço trocando de lugar com o parceiro e batendo os tacos enquanto o ataque busca a bola e não oferece risco às bases. Caso derrube a casinha num arremesso ou acerte alguém da dupla de defesa quando um dos tacos não estiver tocando a área do círculo, trocam-se as posições. Ganha quem fizer mais pontos. Essas são as principais regras do Bete, pelo que lembro. O campo do jogo era a rua. E nós nos sentíamos os donos dela.
Quem nos tirou da rua foi o vídeo game. Numa mesma semana eu ganhei um Odissey e o Riva ganhou um Atari. A turma passava o sábado na minha casa e o domingo na casa de Riva. É certo que eu e ele passávamos as noites aprimorando os conhecimentos em horas de River Raid, Come Come, Senhor das Trevas e Asteroids. Por um tempo, a rua ficou vazia de gente. Sem bola batendo nos muros, sem o som dos tacos, sem infância. A turma se escondeu em frente à TV. Depois, cada um seguiu seu rumo. Hoje, estamos em latitudes diferentes. Há dois anos visitei a rua da minha meninice. Daquela Boa Esperança, restaram só as lembranças. As casas perderam a cor, as árvores e os amigos. Até o asfalto perdeu o viço. Está cheio de buracos. Mesmo assim, ao fechar os olhos, pude ouvir o som dos tacos batendo para desespero da dupla de ataque.
Estas e outras lembranças acordaram com a leitura do livro MÃE DA RUA (Ettori Bottini, Cosac Naify). O autor desfila uma crônica da sua infância na São Paulo dos anos 50 e 60, além de apresentar um manual de instruções para jogos como bola de gude, jan ken po e taco (é como ele chama o Bete), entre outras brincadeiras. É um livro para meninos. Futebol, carrinho de rolimã e revólver de feijão não faziam parte do universo feminino daqueles tempos. O texto emociona desde o início. O capítulo A Turma é de arrepiar os cabelos da unha. O projeto gráfico é um primor. Fotos e ilustrações nos remetem a um tempo distante, medido na frase que abre o livro, em que a mãe grita para o filho: - Vai brincar na rua, moleque!!! Ettori Bottini tem um olhar aguçado que já rendeu belos e premiados trabalhos na área das artes gráficas. Neste primeiro livro, seu olhar não sensibilizou o papel com imagens. Ele foi além: fotografou parte da infância com palavras. As imagens ficam por conta de cada leitor. Para mim, ele fotografou a rua Boa Esperança e uma turma de meninos que, embora distantes, sabem-se amigos. Hatuna Matata.

P.S. Dia desses, cozinhando o corpo e a mente nas águas quentes das piscinas termais do Goiás, ensinamos os meninos a jogar "palitinho" com pedrinhas. Sucesso total! E viva a cultura infantil!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Revista Brasileira "VEJA"

revista veja
Revista brasileira “VEJA” 23/01/2008

Documento pdf, com 22 mb, imagens scan, 104 páginas.
Diversos artigos, e em destaque na capa : Super Economia,
As lições de quem triunfou no boom económico que produz 164 milionários por dia no Brasil.
E ainda: Como a Apple consegiu fazer o laptop mais fino do mundo...Saúde: Novos remédios contra insónia, informações confiáveis sobre saúde na internet, febre amarela pode virar epidemia.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Viver para Contá-la - Gabriel Garcia Marquez

Gabriel Garcia Marquez é para mim um escritor esquisito, não só ao nível da composição dos seus textos, como sobretudo devido à estranheza das suas histórias.
Prémio Nobel em 1982, Garcia Marquez assentou toda a sua carreira, enquanto escritor, num género que podemos classificar, ou pelo menos eu classifico-o, do realismo-fantástico, género esse povoado de fantasmas, demónios e situações surrealistas que vão sendo misturadas com o mundo real, dando então origem a um universo onírico, algo confuso, que deve ser lido, pensado e analisado com muito cuidado.
Pessoalmente não sou apreciador desse estilo, nem do simples e puro género do fantástico. Amante do Histórico e do realismo puro (Eça de Queirós, Maugham, Dostoiévski, Tolstoi, Vítor Hugo, Zola, Dickens, Jorge Amado e tantos outros), gosto essencialmente de ler sobre temas sociais e humanos e, após a leitura ou durante a mesma, efectuar vastas análises ao que leio e enquadrar aquela realidade na nossa actual sociedade.
No entanto e em relação a Marquez, algo me incomoda. Incomoda-me não entender a sua escrita e incomoda-me haver toda uma legião de fãs em todo o mundo que fazem dele o escritor mais consagrado do nosso tempo, sem que eu entenda esse sucesso. E vai daí, há algum tempo propus-me a entender a sua obra e o contexto da suas histórias.
Lendo por duas (2) vezes “Cem anos de solidão”, lendo também “Relato de um náufrago” e tentando ler o “Outono do Patriarca”, em todas estas situações fiquei sempre desiludido e como uma clara sensação de tempo perdido.
Até que, numa ida à biblioteca, me deparo com este “Viver para contá-la” livro que, alegadamente e segundo o que já havia lido, tratar-se-ia de uma autobiografia. Nada melhor então para ficar a conhecer em definitivo a s suas raízes, filosofias, paixões, gostos e inspirações que lhe moldaram o carácter e directamente o seu estilo de escrita.
”Viver para contá-la” trata-se então de uma autobiografia de Marquez que, sem preconceitos e tabús, narra de uma forma quente, apaixonada e ao mesmo tempo crua, toda a sua vida.
Antes de aprofundar a análise ao livro, há que referir que este trata-se do primeiro volume da sua biografia.
O livro inicia-se já enquanto Marquez estudante de direito em Barranquilla, recebendo a visita da mãe que lhe solicita que a acompanhe no sentido de venderem a casa dos avós em Aracataca, local onde ele nasceu e onde foi criado. É esse encontro o mote para este livro fabuloso, pois não se trata de umas simples memórias de Garcia Marquez.
Desde logo e com as descrições de Aracataca, ficamos com a ideia de onde Marquez foi beber a inspiração para criar “Cem anos de Solidão” e mais fascinados ficamos quando nos apercebemos que a história do livro é, simplesmente, a História da sua própria família. E continua.
Marquez vai desfilando as suas memórias. Memórias povoadas de histórias fantásticas mas reais, o surrealismo é algo que está entranhado nos povos caribenhos e da América do Sul, continente onde há muito circulam histórias e mistérios fantásticos. Quem nunca ouviu falar de Tiahuanaco, Cuzco, Nazca, Macchu Picchu, a perdida cidade do ouro dos Incas, os fantasmas da Jamaica, a misteriosa Ilha da Páscoa e tantos mais?
Pois bem, Marquez dá-nos o retracto daquele povo supersticioso, mas muito apaixonado e respeitoso da sua História e dos seu passado. Um mundo onde e segundo Marquez, “o estranho é não acontecer nada de estranho”
E vai por aí fora.
A sua infância e o modo como era visto e tido pelas pessoas que o rodeavam. As histórias que ia ouvindo pela bocas dos mais velhos, as suas observações e considerações pelo meio que o rodeava. O seu extemporâneo amor à leitura que o leva a ler, muito novo, obras como “As mil e uma noites”, a “Odisseia” de Homero, ”Orlando Furioso”, ”D. Quixote” e o ”Conde de Monte Cristo”, obras que lhe abriram as portas desses vasto e fascinante mundo da literatura e que o acompanharam desde sempre.
Mas Marquez vais mais longe.
Para além de narrar o passado dos seus pais e avós, ele situa, a nível geopolítico e social, a Colômbia no mundo, sobretudo ao nível das turbulências que desde sempre abalaram aquele país do Caribe. Amigo pessoal de figuras públicas, sobretudo figuras colombianas, destacando-se contudo a enorme amizade com Fidel Castro. Mas é curioso as personagens estranhas que marcam a sua vida e que lhe inspiraram a construção de personagens para os seus romances. Desde o coronel que fazia peixinhos de ouro numa velha oficina depois de uma vida de combatente (lembram-se do coronel Aureliano Buendía em “Cem anos de solidão”? Pois foi baseado no próprio avô de Marquez que fazia peixinhos de ouro depois de uma vida de combatente), até à sua tia que comia terra, passando pela tia que um dia lhes surgiu em casa e disse “venho me despedir, pois vou morrer!”, e à sua própria mãe, que com o seu forte carácter, o inspirou a criar a matriarca Úrsula, talvez a figura mais forte de “Cem anos de solidão”.
Em todas estas 579 páginas, Marquez narra tudo isso e muito mais. O seu percurso enquanto ser humano, o seu percurso estudantil e profissional. As obras e escritores que o inspiraram, a forma como estudou a aprendeu a técnica do romance, os mestres que lhe deram força para continuar quando as decepções o invadiam, os seus primeiros contos, enfim, todo um percurso rico em pormenores que finda em 1957 (fim deste volume).
Fico imensamente curioso em relação ao segundo volume, pois será nesse que Marquez narrará como construiu os seus romances, as suas estadias em Paris e no México (local onde escreveu “Cem anos de solidão”, a atribuição do Prémio Nobel e as suas amizades com escritores consagrados, entre os quais o “nosso” José Saramago.
Neste primeiro volume fica assim claro que as obras de Marquez espelham uma realidade que efectivamente é a do seu povo, uma realidade fantástica e sensual, inserida numa cultura secular com tantas tradições.
Quanto a mim, fiquei maravilhado com este livro e com o génio deste homem que, com os seus textos, procurou sempre honrar e homenagear um país e um povo que é o seu.
Talvez este livro tenha sido o mote para mais um fã de Marquez, ainda mais porque achei curioso algumas manias que ele tem que eu também tenho (por exemplo ele adora cheirar os livros novos e eu também). De certeza que vou ler mais uns romances dele, pelo menos agora que entendo o porquê desse estranho universo, Marquez tem agora outra lógica e outro sabor.

G. H. Ephron - Delírio

Título: Delírio
Autor: G. H. Ephron
Gênero: Suspense
Editora: NOME DA EDITORA

Especialista no estudo da mente e do comportamento, Peter Zak é requisitado pelo advogado criminalista Chip Ferguson para avaliar o estado mental de um cliente. Nick Babikian encontrara a esposa esfaqueada e boiando na piscina da casa, e sabe que as suspeitas recairão sobre si. Nick jura que é inocente, mas não tem nenhuma prova, a não ser sua declaração de que a esposa estava tendo um caso com outro homem - o pai do filho que ela estava esperando. À medida que a investigação progride, Zak se identifica cada vez mais com Nick - no passado, seu diagnóstico no tribunal sobre a condição psíquica de um réu levara um criminoso a buscar vingança assassinando brutalmetne a esposa de Zak. Agora, tudo o leva a crer que esse mesmo homem, de alguma forma lhe esteja atormentando a sua vida: sua casa é misteriosamente invadida, e uma peça de cerâmica que pertencera a sua esposa lhe é enviada em pedaços. Perdido, confuso entre a realidade e seus próprios delírios, Zak tem pouco tempo para juntar as peças de um intrincado quebra-cabeça e desmascarar um assassino perigoso, que não pensará duas vezes antes de destruí-lo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Agatha Christie - Por Que Não Pediram a Evans?


Título: Por Que Não Pediram a Evans?
Autor: Agatha Christie
Gênero: Policial
Editora: Nova Fronteira

Em Por que Não Pediram a Evans?, publicado originalmente em 1934, Agatha Christie põe em cena os espirituosos Lady Frances Derwent e Bobby Jones. Bobby, em meio a um jogo de golfe, encontra um homem moribundo, aparentemente caído de um penhasco. Dos lábios do estranho saem as inusitadas palavras que dão título ao livro e que lançam o casal de amigos numa investigação. Mal sabem os detetives amadores que sair indagando sobre a possível identidade de Evans e sobre o que não foi pedido a este e algo que colocará suas próprias vidas em perigo.

Vera Lucia Marinzeck de Carvalho - Reconciliação

Título: RECONCILIAÇÃO
Autor: Vera Lucia Marinzeck de Carvalh
Gênero: Espiritismo
Editora: Petit

Uma fascinante, comovente e esclarecedora narrativa. Sua trama envolvente começa com um duplo assassinato. Mas, após todo o drama, o leitor viverá uma profunda lição de amor, solidariedade, renúncia e ternura.

Mãos de Luz

maos de luz
Mãos de Luz, ( Barbara Ann Brennan )
Famoso livro sobre cura através das mãos, através do magnetismo humano,
O livro fala ainda da aura humana, realidade multi-dimensional, energias, exercícios para ver campos de energia vital do universo, para ver aura humana, e mais...
Livro word, comprimido em rar, 3,30 mb. 75 páginas.
Excelente ebook.
Link alternativo ( Mega upload )

Manual de Sobrevivência

manual sobrevivencia
A imagem de capa é em inglês, mas o ebook está traduzido para Português,
Manual de sobrevivência...das forças militares americanas.
( Autor original : John Boswell , Tradução Loureiro Cadete, )
Primeiros socorros, travessia de terreno perigoso, procura de alimentos e água,
Como construir abrigos e fazer fogo, técnicas de salvamento, sobrevivência em situações extremas : situaçoes de guerra ou catástrofes. Um livro muito útil .
6,9 mb. 6 volumes individuais em pdf .
Link alternativo ( mega upload )

A biblioteca transmissivel: o nascimento.


Existem dois géneros de pessoas: as que lêem e as que não lêem.
Talvez se pudesse dividir o mundo desta forma tão simplista. Afinal, quantas formas de catalogação existem sem que levantemos qualquer género de objecção?
Este blog é o de uma pessoa que lê. E lê compulsivamente.
Temos conhecimento da existência de inúmeros blogs sobre a temática dos livros, o que não obsta – porque a paixão é irracional – a que nos lancemos neste projecto de dar a conhecer ao mundo as obras que nos têm marcado ao longo da nossa existência.
Este blog não obedecerá a mais nenhum critério que não seja o dos gostos pessoais do autor, ou seja, praticamente tudo. Escreverei sobre todos os livros que vier a ler, e em muitos momentos, sobre os livros que li no passado.
Esta será a minha biblioteca transmissível, e aqui, todos dizem o que pensam.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

A CARTA de Pero Vaz de Caminha (3ª parte)

(...)
Quando fizemos vela, seriam já na pria sentados junto ao rio obra de sessenta ou setenta homens, que a pouco e pouco se haviam ali juntado. Fomos ao longo da costa e mandou o capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.
E sendo nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do local donde tínhamos levantado ferro, um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro e com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles e um pouco antes do sol posto amainaram obra de uma légua do recife e ancoraram em onze braças.
E sendo Afonso Lopes, nosso piloto, num daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou numa almadia dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos; e um deles trazia um arco e seis ou sete setas, mas não se serviram deles. Trouxe-os logo, já noite, ao capitão, sendo recebidos com muito prazer e festa na sua nau.
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, e é-lhes indiferente cobrir ou mostrar suas vergonhas. E procedem nisso com tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e neles metidos seus ossos brancos, verdadeiros, com o comprimento de uma mão travessa e da grossura de um fuso de algodão, e agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço, e o que lhes fica entre o beiço e os dentes é feito como o roque de xadrez, e de tal maneira o trazem ali encaixado que não lhe faz doer nem lhes estorva a fala, o comer ou o beber. Os seus cabelos são corredios e andavam tosquiados, de tosquia alta mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para trás uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como cera, embora não o fosse, de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.
O capitão, quando eles vieram, estava sentado numa cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço e, aos pés, uma alcatifa por estrado. Sancho de Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia e nós outros que aqui na nau com eles vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas e entraram. Mas não fizeram nenhuma menção de cortesia nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que a dizer-nos que ali havia ouro.
Também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como se lá também houvesse prata.
Mostraram-lhe um papagaio pardo que o capitão tem aqui, e tomaram-no logo na mão e acenaram para terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhe uma galinha: quase tiveram medo dela e não lhe queriam pôr a mão; depois a tomaram como que espantados.
Deram-lhes ali de comer pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada. E, se alguma coisa provavam, lançavam-na logo fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça: mal lhe puseram a boca e não gostaram nada, nem a quiseram mais. Trouxeram-lhes água numa albarrada e, tomando alguns bocados, não beberam, somente lavaram as bocas e lançaram-na logo fora.
Viu um deles umas contas brancas de rosário. Acenou que lhas dessem, folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como que dizendo que dariam ouro por aquilo.
Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.
Então estiraram-se de costas na alcatifa a dormir, sem buscarem maneira de cobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capitão lhes mandou pôr por baixo das cabeças seus coxins, e o da cabeleira esforçava-se por a não quebrar. E lançaram-lhes um manto em cima e eles consentiram, ficaram quietos e dormiram.
(...)
Continua

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Dias Gomes - O Pagador de Promessas


Título: O Pagador de Promessas
Autor: Dias Gomes
Gênero: Roteiro Teatral
Editora: Ediouro

Um homem simples e sua fé no cumprimento da penosa promessa; o padre e seus rígidos princípios; a sociedade que arbitrariamente, julga, condena e absolve estas as verdades que se chocam em o pagador de promessas.

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Jorge Luis Borges - Livro dos Sonhos


Título: Livro dos Sonhos
Autor: Jorge Luis Borges
Gênero: Romance
Editora: Difel

Uma maravilhosa antologia literária sobre o tema do sonho. Especialista no assunto, o erudito escritor argentino nos brinda com pérolas da cultura Ocidental e Oriental: da Bíblia e as \"Mil e uma Noites\" a Nietzche e Platão.

LANÇAMENTO DIGITAL SOURCE - Agatha Christie - Morte na Mesopotâmia

Título: Morte na Mesopotâmia
Autor: Agatha Christie
Gênero: Policial
Editora: Nova Fronteira
Na misteriosa e fascinante Bagdá, uma expediçãoo arqueológica procura vestígios de uma antiga cidade assíria. Mas a arqueologia pouco pode ajudar, quando a bela e encantadora Louise Leidner, esposa do chefe da expedição, é brutalmente assassinada. É preciso que entre em cena o maior de todos os decifradores de enigmas: um conhecido detetive belga... Morte na Mesopotâmia é uma das mais sensacionais aventuras de Hercule Poirot, o genial investigador criado pela imaginação da “velha dama” do crime, Agatha Christie.

arcelo Secron Bessa - Histórias Positivas: a Literatura (des)construindo a AIDS

Título: HISTÓRIAS POSITIVAS: A literatura (des)construindo a aids
Autor: Marcelo Secron Bessa
Gênero: Ciências / Sexualidade
Editora: Record

Corajoso. Necessário. Indispensável. Valer-se desses tres adjetivos para definir o livro Historias Positivas, de Marcelo Secron Bessa, é em si um fato auspicioso.

Henry James - Os Inocentes

Título: OS INOCENTES
Autor: Henry James
Gênero: Infanto-Juvenil
Editora: Scipione

Adaptação em português do clássico da literatura norte-americana, com linguagem acessível para o público jovem. Uma jovem provinciana é contratada por um distinto cavalheiro como governanta e preceptora de seus dois sobrinhos, que residem no interior da Inglaterra. Aos poucos ela constata que as crianças estão sob a influência maligna de dois fantasmas: do antigo criado e da antiga preceptora. A nova governanta vê, ou acredita ver, os espectros, mas não pode se comunicar com o tio das crianças, que mora em Londres.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amor em Tempos de Cólera - Gabriel Garcia Marquez

Florentino Ariza apaixona-se pela jovem Fermina Daza de uma forma tão intensa e pura que, segundo ele, é mesmo amor o que sente. Começa então a escrever-lhe bilhetes, utilizando a velha tia de Fermina como intermediária do jovem casal.
Declaram então um amor eterno, no entanto o pai de Fermina não vê com bons olhos esse relacionamento, pois Florentino não tem estatuto social e ele pretende que a jovem se case com alguém de “boas famílias” e não com um pé rapado sem futuro.
Fermina é então obrigada a partir com o pai numa longa viagem, no entanto, em vez de o amor desaparecer, apenas se torna mais intenso e, num belo dia após o regresso de Fermina, sem ela própria saber porquê, Fermina sente que esse amor desapareceu, assim, simplesmente desapareceu.
No entanto Florentino não se rende...
Das várias opiniões que li sobre esta obra, em todas ela se referia que esta história é uma bela história de amor.
Em parte concordo, pois realmente é uma bela e terna história de amor, porém, penso que é uma forma muito simplista de classificar e resumir esta obra.
Gabriel Garcia Marquez é indubitavelmente um dos grandes escritores de sempre. Ao contrário do que dizia José Luis Borges ”Marquez não trouxe nada de novo à literatura”, tenho a certeza que efectivamente Marquez trouxe muito de novo à literatura.
Marquez inventa, ou se quisermos, é um dos percursores e o seu mais fiel escritor do género “realismo fantástico”, género esse que não é o meu estilo mas que e depois de ter lido o “Viver para contá-la”, aprendi a respeitar e a apreciar.
Depois Garcia Marquez tem a excepcional capacidade de misturar as realidades com sonhos, crenças e rituais, tornando assim os seus romances em histórias onde a realidade e a ficção se misturam de uma forma onde nós não sabemos onde começa uma e acaba a outra, tal o universo cheio de fábulas, mitos e magia, completamente um universo onírico.
Pura e simplesmente o que Marquez faz é o de dar ao leitor um mundo, um universo que numa primeira análise é em tudo semelhante ao nosso para, e aos poucos, ir inserindo histórias fantásticas, mitos e fábulas do folclore colombiano, histórias estranhas da sua própria família, dos seus amigos e metáforas, principalmente metáforas políticas.
Dizia Garcia Marquez em “Viver para contá-la” :”estranho era não acontecer nada de estranho no local da minha infância”, por isso e de acordo com a própria vivência do escritor, imaginem o que salta para os seus romances.
Em “Amor em tempos de cólera”, Marquez não foge ao universo acima descrito.
A história tem um espaço temporal de cerca de 60 anos. Inicia-se algumas décadas antes do fim do séc. XIX e finda nas primeiras décadas do séc. XX.
Aqui Marquez não aborda questões políticas. Em toda a obra é apenas referido, e muito superficialmente, as guerras que devastaram a região das Caraíbas no período descrito.
Descreve também um surto de cólera que efectivamente existiu, mas ele usa esse surto para jogar com as personagens, criando cenários fantásticos numa grande metáfora sobre a vida humana.
Neste romance ele personifica a paixão, o amor humano em toda a sua pureza. Mas não só. N
este romance Marquez efectua uma homenagem à mulher, ser que guarda em si a eternidade da vida e a alegria, paz e harmonia do homem. Fermina Daza representa esse ideal. Uma mulher que é amada toda a vida, que é vista e tida como uma Deusa, como uma esplendorosa luz que ilumina a alma de Florentino, que lhe dá alento.
Florentino nunca deixa de amar aquela mulher. Um amor que extravasa o físico, a matéria.
No decurso da sua vida, Florentino entrega-se a várias mulheres (até o episódio da forma como Florentino perde a virgindade, e acreditem que no caso perde mesmo, é extremamente simbólico), relações sem futuro porque o seu coração estava entregue, aprisionado. As suas entregas são uma forma de prostituição, pois e consoante ele defendia: ”Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, e por todas com a mesma dor, sem atraiçoar nenhuma”.
A estrutura do romance não segue uma cronologia linear.
Marquez joga com as memórias dos personagens. Flash-back’s constantes compõem a obra, sempre num ritmo pausado, calmo, como deve ser vivido o amor. Um romance cheio de imagens mentais.
Gostei muito do romance fundamentalmente por causa da escrita de Marquez. Ele encanta. A forma como escreve é musical, poética e inimitável. Dá realmente um enorme prazer ler este livro, pois as palavras fluem compondo um texto narrativo a roçar o poético.
A simbologia que emprega é muito forte, agarrando-nos e dando-nos quase a possibilidade de vivermos aquelas vidas, pois ficamos com a sensação que todo aquele amor, é, ao fim e ao cabo, um pouco da nossa pretensão, do nosso próprio ideal romântico.
Um livro vivo e que nos faz viver um amor eterno.

Eurico, o Presbítero - Alexandre Herculano

Apreciador de romances históricos, não podia deixar de efectuar uma homenagem pessoal ao iniciador do romance histórico em Portugal que, seguindo o modelo de Wlater Scott, fez reviver velhas tradições medievais, reconstruindo toda uma sociedade onde gentis cavaleiros tentavam conquistar imponentes castelos: Alexandre Herculano.
Alexandre Herculano foi um dos mentores do movimento romântico, logo, a sua obra reflecte as tendências do romantismo. Historiador e escritor, Herculano que, diga-se de passagem, foi durante muitos anos responsável pela Torre do Tombo, tendo assim acesso de uma forma privilegiada a documentos históricos, mas Alexandre Herculano estendeu a sua capacidade de escrita por diversos géneros literários: Poesia, Romance e História. Dono de uma visão apurada sobre a realidade do país, nos seus romances procurou sempre relacionar a História com a ficção, no entanto procurou inserir essa ficção dentro da História para que, assim, essa ficção, fundamentalmente ao nível dos diálogos, não destruísse a História. Ou seja, Herculano foi o primeiro a entender o quão importante seria o romance histórico para a divulgação e conhecimento da História.
Mas Alexandre Herculano como historiador foi deveras importante para a sociedade da altura. Penso que para o caso não vale a pena aqui aprofundar a questão. Não só porque nos levaria para campos políticos e filosóficos que influenciaram os seus contemporâneos, como também abordar a sua importância enquanto historiador, seria afastarmo-nos do meu propósito, no entanto e apenas para complementar, Alexandre Herculano teve um papel vital na visão da História em Portugal e foi um dos grandes escritores portugueses de todos os tempos e um homem que teve um contributo decisivo na cultura portuguesa.
"Eurico, o Presbítero" é um romance grandioso, uma verdadeira Odisseia.
Li, algures, que podemos compara "Eurico, o Presbítero", enquanto obra grandiosa, a "Odisseia" de Homero. Pessoalmente concordo. Não tenho mesmo problemas nenhuns em considerar "Eurico" uma obra no mesmo patamar da "Odisseia" ou dos "Lusíadas", enquanto obra de capital importância para a nossa cultura e identidade lusa.
Eurico, nobre mas sem grandes bens, enamora-se por Hermengarda, filha de um importante e influente nobre. No entanto e dada a sua baixa condição social, os apaixonados são impedidos de casar, forçando assim Eurico a escolher uma vida de celibato, tomando os juramentos de monge e fechando-se num mosteiro.
A primeira fase do romance é belíssima. Eurico vagueia triste e pensativo. Os seus pensamentos são em prosa poética e revelam uma visão do mundo que vai de encontro às próprias teses de Herculano. Eurico elabora nesta fase uma profunda reflexão sobre os problemas que afligem o Homem.
Ainda no mosteiro, Eurico vem a saber das invasões árabes e da fuga das hostes cristãs. Nessa desordenada fuga, Hermengarda acaba por ser raptada pelos mouros.
Quando está prestes a ser desonrada pelo comandante dos exércitos mouros, Hermengarda é espectacularmente salva por um cavaleiro negro que, lutando como um louco, consegue desbaratar todo o exército muçulmano. Para espanto de Hermengarda, o cavaleiro negro identifica-se e é com espanto que vê surgir na sua frente o próprio Eurico, seu antigo noivo. Porém mais está para acontecer, os mouros não desistem...
Alexandre Herculano situa a acção na época das primeiras invasões árabes (sec. IX, salvo erro). Portugal ainda não existia, o qeu existia era um povo que ocupava esta nossa faixa de território da Península Ibérica: os Visigodos.
Assim, Herculano descreve uma época problemática e perigosa a vários níveis: a influência da cultura romana era praticamente nula, os visigodos procuravam na crença do deus único um sentido, enquanto que em contraponto, surgia fulgurante, uma outra civilização com outras crenças religiosas. A própria tragédia de Eurico é um sinal desse confronto de crenças, por um lado exige-se o celibato, por outro, os seus pensamentos deixam antever outras ideias. A derrocada do "império" Godo está também presente, quase como a antevisão do surgimento de um outro povo. O tom grandioso da obra deixa antever futuros acontecimentos que irão mudar a face do território e a sua História.
É engraçado que neste romance Herculano dá bastante ênfase ao conflito amoroso. E é neste fase que se dá aqueles pensamentos poéticos que tornam a obra belíssima. Digo engraçado porque o próprio Herculano afirmava ser essa a fase aquela com que ele maiss e identificava, sendo aí que ele expôs o fulcro do seu pensamento. Ora bem, sabe-se que na juventude Herculano também havia sacrificado uma paixão à sua vocação de escritor. Logo, Eurico ao preferir o celibato ao amor, personifica a sublimação de um ideal, o sacrifício do amor a esse ideal. É interessante!
Em suma, uma obra cuja opinião é muito difícil, sobretudo porque tenho a percepção que toda a obra deve ser analisada (não é por acaso que existe os "Apontamentos" da Europa-América), pois toda ela tem uma série de técnicas literárias, intenções políticas, estruturas díspares, críticas sociais e morais, pensamentos que advêm de várias correntes filosóficas e inclusivamente pretensões de inquirir o papel da religião.
Quanto a mim é uma obra muito profunda que, e a custo (custou-me também constatar que ainda ninguém havia opinado sobre a obra) elaborei esta opinião, mas reconheço que está muito incompleta. No entanto e por muito que goste de efectuar análises aos livros que leio, neste caso não consigo melhor e mesmo assim, só à custa de vários apontamentos que fui escrevendo ao longo de várias semanas.
Uma obra portentosa, importantíssima para a nossa cultura.

Diário de Bridget Jones - Helen Fielding

O livro está escrito numa linguagem muito leve, fácil, muito soft. Desculpem-me quem adorou o livro, mas a mim pareceu-me um livro tipicamente light.
A história é demasiado simplista: Uma jovem mulher (na casa dos 30 anos), tem uma vida fútil, cheia de nada e trasbordante de obsessões. Ela é obsessiva pelo peso, pelo tabaco, pelo álcool, pelos homens e até as relações com a família e amigos é algo obsessiva.
O livro basicamente é apenas isso. Não há nada para analisar. De início é engraçado, algumas páginas depois entretém e antes do meio já é um terrível tédio, pois as situações são muito semelhantes, tudo numa madorra irritante, onde ela vai descrevendo as suas obsessões e, a partir de uma certa altura, a obsessiva relação com o seu chefe.
Tem de facto algumas passagens engraçadas, sobretudo porque, já tendo visto e gostado do filme, acabava por imaginar as situações com o Hugh Grant e a Renée Zellweger, mas e sem ser isso, o livro é um vazio execrável.
Com um enleio (chamemos-lhe assim) muito fraco, com personagens que nunca se impõem (ao contrário do filme), este foi um livro que me decepcionou muito, pois fica muito aquém do filme, filme esse que apenas ressalva o que a obra tem de interesse.
Chegando ao fim, não consegui começar o seguinte (havia-o requisitado na biblioteca). De certeza que o estilo é idêntico, de certeza que ela irá continuar na sua obsessão pelo peso, tabaco, álcool e homens. De certeza tudo, a receita do primeiro teve êxito, logo não há que mudar.
As mulheres que afirmam que este filme sublinha as suas preocupações, os seus estados de espírito ou um pouco do seu dia-a-dia, então, minha amigas, penso que terão que rever as prioridades da vossa vida. Isso sem querer ofender ninguém, mas arrepia-me pensar que existe alguém que tenha uma vida tão fútil.
Enfim, um livro muito fraco, onde não só se aprende nada, como não tem a capacidade de entreter.