domingo, 31 de julho de 2016

Sorteio: A Seleção

Boa noite, leitores!

Quase que esse mês fica sem sorteio, hein? Ainda bem que existe o dia 31, então ainda estamos em maio ehuaehuaheu
Booom, desta vez os livros escolhidos para vocês são A Seleção e Contos da Seleção – sendo que o primeiro foi cedido gentilmente pela leitora Kathelyn Lima. Obrigada, Kath! Ambos os livros serão para apenas uma pessoa.



Como sempre, é só preencher o formulário abaixo para concorrer. Desta vez, a ÚNICA ENTRADA OBRIGATÓRIA É SEGUIR O BLOG. As outras opções que são carregadas depois disso são opcionais: você preenche apenas se quiser ganhar mais chances.

a Rafflecopter giveaway

Observações:
• Ter endereço de entrega no Brasil;
• Em caso de vitória, responder com o endereço completo em até três dias, caso contrário um novo sorteio será realizado;
• O blog não se responsabiliza por perdas e extravios dos Correios.

O resultado será divulgado na noite do dia 14 de junho. Inscrevam-se, e que a sua ficha seja  selecionada!

sábado, 30 de julho de 2016

A Sala dos Répteis


Lemony Snicket é um autor que não pode ser acusado de falta de franqueza. Sabe que nem todo mundo suporta as tristezas que ele conta e por isso – para que depois ninguém reclame – faz questão de avisar: “Se você esperava encontrar uma história tranquila e alegre, lamento dizer que escolheu o livro errado. A história pode parecer animadora no início, quando os meninos Baudelaire passam o tempo em companhia de alguns répteis interessantes e de um tio alto-astral, mas não se deixem enganar...”
Os Baudelaire têm mesmo uma incrível má sorte, mas pode-se afirmar que a vida deles seria bem mais fácil se não tivessem de enfrentar o tempo todo as armadilhas de seu arqui-inimigo: o conde Olaf, um homem revoltante, gosmento e pérfido. Em Mau começo ele deu uma pequena amostra do que é capaz de fazer para infernizar a vida de Violet, Klaus e Sunny Baudelaire – e aqui as coisas só pioram.

Carta

Ao Meu Amável Editor,

Escrevo-lhe das margens do Lago Lacrimoso, onde examino o que restou da casa da tia Josephine para ter uma percepção clara do que aconteceu quando os órfãos Baudelaire estiveram aqui.
Vá ao Café Kafka às quatro horas na próxima quarta-feira, por favor, e peça uma xícara de chá de jasmim ao garçom mais alto. A menos que os meus inimigos tenham triunfado, ele trará, no lugar do seu pedido, um envelope bem grande. Dentro você encontrará a minha descrição desses espantosos acontecimentos, intitulada O lago das sanguessugas, bem como um esboço da Gruta do “P”, um pequeno saco com cacos de vidro e o cardápio do restaurante Palhaço Ansioso. Haverá também um tubo de ensaio contendo uma sanguessuga do lago, que o sr. Helquist usará como modelo para fazer uma ilustração caprichada. Em nenhuma hipótese esse tubo de ensaio deve ser aberto.
Lembre-se, o senhor é minha última esperança de que as histórias dos órfãos Baudelaire sejam finalmente contadas ao grande público.

Respeitosamente,
Lemony Snicket

Capítulo treze


Se este fosse um livro para entreter crianças pequenas, vocês sabem o que viria a seguir. Desmascarada a identidade e desmascarados os planos maléficos do vilão, a polícia entraria em cena e o poria na cadeia para o resto de sua vida, enquanto os valentes garotos iriam festejar com uma pizza e viver felizes para sempre. Mas este livro trata dos órfãos Baudelaire, e vocês e eu sabemos que a probabilidade de essas crianças desgraçadas viverem felizes para sempre é quase a mesma de o tio Monty ressuscitar. De qualquer modo, ao tornar-se evidente a tatuagem, os órfãos Baudelaire tiveram a impressão de que pelo menos uma pequena parte do tio Monty voltara para eles quando, de uma vez por todas, provaram a traição do conde Olaf.
“É o olho, não resta a menor dúvida”, disse o sr. Poe, e parou de esfregar o tornozelo do conde Olaf. “O senhor é indubitavelmente o conde Olaf. Considere-se preso. Indubitavelmente.”
“E eu estou profundamente chocado”, disse o dr. Lucafont, batendo suas mãos estranhamente sólidas contra a cabeça.
“Não menos do que eu”, concordou o sr. Poe, segurando o braço do conde Olaf a fim de impedir que fugisse para algum lugar. “Violet, Klaus, Sunny: por favor, me perdoem por não ter acreditado antes em vocês. É que parecia muito estrambótico ele ter ido à procura de vocês disfarçado como um assistente de laboratório e arquitetado todo esse plano maquiavélico para roubar a fortuna de vocês.”
“Eu só fico imaginando o que pode ter acontecido com Gustavo, o verdadeiro assistente de laboratório do tio Monty”, Klaus conjeturou em voz alta. “Se Gustavo não tivesse desistido do emprego, tio Monty jamais teria contratado o conde Olaf.”
O conde Olaf havia se mantido em silêncio o tempo todo, desde a revelação de sua tatuagem. Seus olhos brilhantes iam de um lado para o outro, observando cada um dos presentes com a mesma atenção que um leão a vigiar um rebanho de antílopes, à procura daquele que mais vale a pena matar e comer. Mas ao ouvir o nome de Gustavo, não se conteve.
“Gustavo não desistiu”, disse com o chiado característico de sua voz. “Gustavo está morto! Um belo dia em que ele se pôs a colher flores silvestres eu o afoguei no pantanal. Depois forjei um bilhete que comunicava sua desistência.” O conde Olaf olhava para as três crianças como se fosse atirar-se sobre elas e estrangulá-las, mas, pelo contrário, ficou absolutamente imóvel, o que de certo modo era ainda mais assustador. “Isso, entretanto, não é nada, comparado ao que farei com vocês, órfãos. Vocês ganharam essa etapa do jogo, mas voltarei para pôr a mão na fortuna e na preciosa pele de vocês.”
“Não se trata de um jogo, homem abominável”, disse o sr. Poe. “Jogo é dominó, polo aquático... Assassinato é um crime, e você pegará cadeia por ele. Vou agora mesmo levar você para a delegacia de polícia na cidade. Droga! Não posso. Meu carro está destruído. Tudo bem, levo você no jipe do dr. Montgomery, e vocês, crianças, me sigam no carro do dr. Lucafont. Finalmente vocês vão poder ver como é o carro de um médico.”
“Seria mais fácil”, disse o dr. Lucafont, “colocar Stephano no meu carro e as crianças irem no jipe. Afinal de contas, o corpo do dr. Montgomery está no meu carro, de modo que não sobra espaço para as três crianças.”
“Bem”, disse o sr. Poe, “eu não queria desapontar as crianças depois de terem passado por tudo o que passaram. Podemos remover o corpo para o jipe e então...”
“Não estamos nem um pouco interessados no interior do carro de um médico”, disse Violet, impaciente. “Inventamos isso só para não nos vermos encurralados sozinhos com o conde Olaf.”
“Vocês não deviam inventar mentiras, órfãos”, disse o conde Olaf.
“Não creio que o senhor possa dar lições de moral às crianças, Olaf”, disse o sr. Poe austeramente. “Pois bem, dr. Lucafont, leve-o o senhor.”
O dr. Lucafont segurou o ombro do conde Olaf com uma de suas mãos estranhamente rígidas e conduziu-o à saída da Sala dos Répteis e depois à saída da casa, parando junto à porta da frente para dar ao sr. Poe e às crianças um sorriso pouco natural.
“Diga adeus aos órfãos, conde Olaf”, disse o dr. Lucafont.
“Adeus”, disse o conde Olaf.
“Adeus”, disse Violet.
“Adeus”, disse Klaus.
O sr. Poe tossiu no seu lenço e fez sem muita vontade um meio aceno para o conde Olaf, a título de adeus. Mas Sunny não disse nada. Violet e Klaus baixaram os olhos para ela, surpresos de que não houvesse falado “Eite!” ou “Du!” ou qualquer das várias palavras que tinha para dizer “Adeus”. Sunny, no entanto, estava encarando o dr. Lucafont com um olhar de determinação, e, em coisa de um instante, deu um salto no ar e mordeu-o na mão.
“Sunny!”, exclamou Violet, e já ia pedir desculpas pelo comportamento da irmã quando viu a mão do dr. Lucafont soltar-se do braço e cair no chão. Sunny foi atrás da mão e atacou-a com seus quatro dentes afiados, produzindo uns estalos como se estivesse quebrando madeira ou plástico e não pele ou osso. E, quando Violet olhou para o lugar onde antes estava a mão do dr. Lucafont, não viu sangue nem qualquer indicação de ferimento, mas sim um brilhante gancho de metal. O dr. Lucafont também olhou para o gancho, depois para Violet, e lançou um sorriso horrível. O conde Olaf também sorriu e no mesmo instante os dois dispararam porta afora.
“O homem com as mãos de gancho!”, gritou Violet. “Ele não é médico! É um dos capangas do conde Olaf!” Instintivamente, ela fez no ar o gesto de agarrá-los, mas foi até a porta da rua e viu que os dois já iam longe, passando a toda velocidade pelos arbustos em forma de cobras.
“Pega!”, gritou Klaus, e os três Baudelaire se dispuseram a perseguir os fugitivos. Mas o sr. Poe colocou-se à frente deles, bloqueando a passagem.
“Não!”, exclamou ele.
“Mas é o homem com as mãos de gancho!”, gritou Violet. “Ele e Olaf vão escapar!”
“Não posso permitir que vocês corram atrás de dois criminosos perigosos”, respondeu o sr. Poe. “Sou responsável pela segurança de vocês e não vou deixar que sofram nenhuma agressão.”
“Então vá o senhor atrás deles!”, gritou Klaus. “Mas depressa!”
O sr. Poe deu os primeiros passos para fora da porta, só que parou ao ouvir o ronco de um motor de automóvel dando a partida. Os dois patifes tinham chegado ao carro do dr. Lucafont, e já estavam se afastando.
“Entre no jipe!”, exclamou Violet. “Vá atrás deles!”
“Um homem não se envolve em perseguições de carros. É trabalho para a polícia. Vou já telefonar para o posto policial, talvez eles consigam bloquear a estrada.”
Os jovens Baudelaire viram o sr. Poe fechar a porta e correr para o telefone, e sentiram-se arrasados. Sabiam que não adiantaria nada. Quando o sr. Poe acabasse de explicar a situação para a polícia, o conde Olaf e o homem com as mãos de gancho já teriam desaparecido havia muito. Subitamente exaustos, Violet, Klaus e Sunny caminharam até a enorme escada do tio Monty e sentaram-se no degrau mais baixo, ouvindo o som amortecido do sr. Poe a falar ao telefone. Eles sabiam que tentar encontrar o conde Olaf e o homem com as mãos de gancho, sobretudo depois que escurecesse, seria como procurar uma agulha no palheiro.
Apesar da ansiedade pela fuga do conde Olaf, os três órfãos devem ter dormido por algumas horas, pois quando se deram conta já havia anoitecido e eles continuavam ali no degrau. Alguém havia posto um cobertor para agasalhá-los, e, ao se espreguiçar, eles perceberam a presença de três sujeitos de macacão que saíam da Sala dos Répteis carregando alguns dos animais nas gaiolas. Atrás deles caminhava um gorducho num terno xadrez de cores berrantes, que parou quando notou que os garotos estavam acordados.
“Ei, meninos”, disse o gorducho com uma voz retumbante. “Desculpem se acordei vocês, mas minha equipe tem que andar depressa.”
“Quem é você?”, indagou Violet. É perturbador adormecer durante o dia e acordar à noite.
“Que é que vocês estão fazendo com os répteis do tio Monty?”, perguntou Klaus. Também é perturbador descobrir que a pessoa dormiu numa escada, e não numa cama ou num saco de dormir.
“Diquesnique?”, perguntou Sunny.
É sempre perturbador e não dá para entender por que cargas d’água uma pessoa escolhe um terno xadrez.
“Meu nome é Bruce”, disse Bruce. “Sou o diretor de marketing da Sociedade Herpetológica. Seu amigo sr. Poe telefonou-me para que eu viesse resgatar as cobras agora que o dr. Montgomery faleceu. Resgatar quer dizer ‘levar embora’.”
“Nós sabemos o que quer dizer ‘resgatar’”, falou Klaus, “mas por que é que vocês estão levando os animais? Para onde eles vão?”
“Bem, vocês três são os órfãos, não é mesmo? Vocês vão se mudar para a casa de outro parente que não vai deixar vocês desamparados como aconteceu com a morte do dr. Montgomery. E é preciso que alguém cuide dessas cobras, por isso elas vão ser transferidas para outros cientistas, para jardins zoológicos, para asilos de idosos. Não encontrando quem possa cuidar delas, em último caso, a gente dá cabo delas.”
“Mas elas fazem parte da coleção do tio Monty!”, exclamou Klaus. “Ele levou anos para encontrar todos esses répteis! Vocês não podem simplesmente atirá-los ao vento!”
“É como tem que ser”, disse Bruce querendo evitar atritos. Ele continuava a falar em voz muito alta, sem motivo aparente.
“Víbora!”, gritou Sunny, e começou a engatinhar na direção da Sala dos Répteis.
“O que minha irmã quer dizer”, explicou Violet, “é que ela fez amizade com uma das cobras. Será que poderíamos levar conosco pelo menos uma delas, a Víbora Incrivelmente Mortífera?”
“Minha primeira resposta é não”, disse Bruce. “O tal do Poe falou que todas as cobras nos pertencem. Minha segunda resposta é: se vocês pensam que eu vou deixar crianças pequenas chegarem perto da Víbora Incrivelmente Mortífera, deem um tempo.”
“Mas a Víbora Incrivelmente Mortífera é inofensiva”, disse Violet. “Seu nome é inapropriado.”
Bruce coçou a cabeça: “É o quê?”
“Isso quer dizer que é um nome enganador, um nome errado”, explicou Klaus. “Foi o tio Monty quem a descobriu, e por isso tinha que lhe dar um nome.”
“Mas esse cara tinha fama de ser brilhante”, disse Bruce. Enfiou a mão num bolso do paletó xadrez e retirou um charuto. “Dar a uma cobra um nome errado não me parece brilhante. Parece uma idiotice. Mas, também, que é que se pode esperar de um homem cujo próprio nome era Montgomery Montgomery?”
“Não é correto”, disse Klaus, “troçar assim do nome de uma pessoa.”
“Não tenho tempo para perguntar o que quer dizer troçar”, falou Bruce. “Mas se a garotinha ali quer dar adeus à Víbora Incrivelmente Mortífera, é melhor que faça isso logo. Ela já está lá fora.”
Sunny começou a engatinhar em direção à porta da frente, mas Klaus ainda não tinha dado por encerrada a sua conversa com Bruce.
“Nosso tio Monty era brilhante”, disse ele com firmeza.
“Ele era um homem brilhante”, concordou Violet, “e é essa imagem que guardaremos dele para sempre.”
“Brilhante!”, gritou Sunny, continuando a engatinhar, e os irmãos sorriram para ela, surpresos por ela ter pronunciado uma palavra que todos podiam entender.
Bruce acendeu seu charuto e deu uma baforada. Em seguida, deu de ombros: “Que bom que é esse o sentimento que você tem por ele, garota”, disse. “Boa sorte para todos, seja lá aonde for que vocês sejam enviados.” Ele olhou para o vistoso relógio em seu pulso, e virou-se para falar com os sujeitos de macacão: “Vamos indo. Em cinco minutos temos que estar outra vez naquela estrada que cheira gengibre”.
“É raiz-forte”, corrigiu Violet, mas Bruce já tinha ido embora. Ela e Klaus olharam um para o outro e depois começaram a seguir Sunny até o lado de fora para dar adeus a seus amigos répteis. Mas, quando chegaram à porta, o sr. Poe entrou na sala e bloqueou-lhes a passagem mais uma vez.
“Vejo que estão acordados”, disse ele. “Por favor, subam e vão dormir. Temos que estar de pé muito cedo amanhã de manhã.”
“Só queremos dizer adeus à cobra”, falou Klaus, mas o sr. Poe balançou a cabeça.
“Vocês vão atrapalhar Bruce”, respondeu ele. “Sem falar que me pareceu que vocês três jamais gostariam de ver uma cobra de novo.”
Os órfãos Baudelaire entreolharam-se e suspiraram. Tudo neste mundo parecia estar dando errado. Era errado o dr. Montgomery haver morrido. Era errado o conde Olaf e o homem com as mãos de gancho terem escapado. Era errado Bruce pensar em Monty como uma pessoa com nome bobo, e não como um cientista brilhante. E era errado presumir que as crianças jamais gostariam de ver uma cobra de novo. As cobras – na verdade, tudo dentro da Sala dos Répteis – eram as últimas lembranças que haviam restado dos poucos dias felizes que os Baudelaire tiveram depois da morte de seus pais. Embora pudessem entender que o sr. Poe não lhes permitiria morar sozinhos com os répteis, era inteiramente errado eles jamais poderem tornar a vê-los, sem nem sequer dizer adeus.
Desconsiderando as instruções do sr. Poe, Violet, Klaus e Sunny apressaram-se em ir para fora pela porta da frente, ao encontro dos sujeitos de macacão, que arrumavam as gaiolas dentro de um furgão com um grande adesivo na parte de trás: “Sociedade Herpetológica”. Era lua cheia e o luar refletia-se nas paredes de vidro da Sala dos Répteis, que ficava parecendo uma grande joia a resplandecer. Brilhante, poderíamos dizer. Quando Bruce usou a palavra “brilhante” a propósito do tio Monty, o sentido era de alguém “que tem fama de talentoso e inteligente”. Mas quando as crianças usaram a palavra – e quando pensaram nela agora, olhando para a Sala dos Répteis, que resplandecia ao luar – ela significava muito mais. Significava que, mesmo naquelas circunstâncias sombrias, mesmo passando pela série de desgraças que os seguiriam o resto da vida, o tio Monty e sua bondade brilhariam nas lembranças dos irmãos. O tio Monty era brilhante no sentido de “radioso”, e brilhantes e radiosos foram os tempos que passaram com ele. Bruce e seus auxiliares da Sociedade Herpetológica podiam desmantelar a coleção do tio Monty, mas ninguém jamais conseguiria desmantelar os sentimentos vividos pelos meninos quando pensavam nele.
“Adeus! Adeus!”, despediram-se os órfãos Baudelaire quando puseram a Víbora Incrivelmente Mortífera no furgão. “Adeus! Adeus!”, acenaram-lhe, e, embora a Víbora fosse amiga especialmente de Sunny, Violet e Klaus viram-se chorando junto com sua irmã, e quando a Víbora Incrivelmente Mortífera ergueu os olhos para vê-los, eles perceberam que ela também estava chorando, com pequenas lágrimas resplandecentes a rolar de seus olhos verdes. A Víbora era brilhante também, e quando as crianças se entreolharam viram suas próprias lágrimas resplandecer.
“Você foi brilhante”, Violet murmurou para Klaus, “quando pesquisou as informações sobre a Mamba do Mal.”
“Você foi brilhante”, Klaus murmurou, retribuindo, “quando apanhou as provas do crime na mala de Stephano.”
“Brilhante!”, repetiu Sunny, e Violet e Klaus deram-lhe um abraço apertado. Até a mais jovem dos Baudelaire havia sido brilhante, ao desviar a atenção dos adultos com a Víbora Incrivelmente Mortífera.
“Adeus! Adeus!”, despediram-se os Baudelaire com acenos para os répteis do tio Monty. Ficaram ali juntos ao luar, e continuaram acenando, mesmo depois que Bruce fechou as portas do furgão, mesmo depois de o furgão ter passado pelos arbustos em forma de cobras e ter seguido a rampa até o Mau Caminho, mesmo depois de ter dobrado uma curva e desaparecer no escuro.

Capítulo doze


Prometo a vocês que esta é a última vez que vou usar a expressão “enquanto isso”, mas é que não consigo ver outro jeito de voltar ao momento em que Klaus havia acabado de explicar ao sr. Poe a intenção de Sunny ao gritar “A-há!”. Agora todos na Sala dos Répteis estavam olhando para Stephano. Sunny tinha um ar triunfante. Klaus tinha um ar desafiador. O sr. Poe tinha um ar furioso. O dr. Lucafont tinha um ar preocupado. Não dava para saber que ar tinha a Víbora Incrivelmente Mortífera porque é difícil identificar a expressão facial das cobras. Stephano encarava todas aquelas pessoas em silêncio, com uma expressão oscilante, na medida em que tentava decidir se ia pôr tudo a limpo, expressão que aqui quer dizer “admitir que ele era realmente o conde Olaf e não tinha objetivos inocentes”, ou se ia perpetuar sua enganação, expressão que aqui equivale a “mentir, mentir e mentir toda a vida”.
“Stephano”, disse o sr. Poe, e pôs-se a tossir no seu lenço. Klaus e Sunny esperaram impacientes a continuação do que ele ia dizer. “Stephano, explique-se. Você acaba de nos dizer que é um especialista em cobras. Antes, no entanto, você havia dito que não entendia nada de cobras e que, portanto, não poderia estar envolvido na morte do dr. Montgomery. Que é que está acontecendo?”
“Quando falei aos senhores que não entendia nada de cobras”, disse Stephano, “estava sendo modesto. Agora, se me dão licença, tenho que ir lá fora um momento, e...”
“Você não estava sendo modesto!”, gritou Klaus. “Você estava mentindo. E está mentindo agora! Você não passa de um mentiroso e de um assassino!”
Stephano arregalou os olhos, e seu rosto anuviou-se de raiva. “Vocês não têm provas disso”, falou.
“Temos, sim senhor”, disse uma voz que vinha da porta, e todos se viraram para ver Violet que se achava ali, com um sorriso no rosto e as provas nas mãos. Triunfante, ela atravessou a Sala dos Répteis até o extremo mais afastado onde os livros que Klaus havia lido sobre a Mamba do Mal continuavam separados numa pilha. Os outros a seguiram, percorrendo as passagens entre os répteis. Sem dizer uma palavra, ela arrumou os objetos em fileira sobre uma mesa: o tubo de ensaio fechado por tampa de borracha, a seringa com agulha de ponta fina, o pequeno maço de papéis dobrados, a carteirinha, o pulverizador e o espelhinho de mão.
“O que é isso tudo?”, perguntou o sr. Poe, apontando para a fileira de objetos.
“Essas”, disse Violet, “são as provas do crime que encontrei na mala de Stephano.”
“Minha mala”, disse Stephano, “é propriedade privada em que você não está autorizada a tocar. É uma grosseira falta de consideração de sua parte, sem falar que estava trancada com cadeado.”
“Era uma emergência”, disse Violet, calma, “e por isso removi o cadeado.”
“Como conseguiu fazer isso?”, perguntou o sr. Poe. “Boas meninas não deveriam saber fazer essas coisas.”
“Minha irmã é uma boa menina”, disse Klaus, “e sabe fazer uma porção de coisas.”
“Rufik!”, concordou Sunny.
“Bem, discutiremos isso mais tarde”, disse o sr. Poe. “Por ora, continue o que estava dizendo.”
“Quando o tio Monty morreu”, começou Violet, “meus irmãos e eu ficamos muito tristes, mas também muito desconfiados.”
“Não ficamos desconfiados!”, exclamou Klaus. “Se alguém está desconfiado, isso quer dizer que não tem certeza! Nós tínhamos certeza absoluta de que Stephano o havia matado!”
“Absurdo!”, disse o dr. Lucafont. “Como expliquei a todos vocês, a morte de Montgomery Montgomery foi um acidente. A Mamba do Mal escapou de sua gaiola e o mordeu. Ponto final.”
“Perdão”, disse Violet, “mas os fatos dizem mais do que isso. Klaus se informou sobre a Mamba do Mal e descobriu como é que ela mata suas vítimas.”
Klaus caminhou até a pilha de livros e abriu o de cima. Ele havia marcado a página com uma tira de papel, de modo que na mesma hora encontrou o que procurava.
“A Mamba do Mal”, leu em voz alta, “é uma das cobras mais mortíferas do hemisfério, notável pelo bote estrangulatório em conjunção com um veneno mortal que produz em suas vítimas um matiz tenebroso, horrível de se ver.” Ele pousou o livro e virou-se para o sr. Poe. “Estrangulatório quer dizer...”
“Nós sabemos o que a palavra quer dizer”, gritou Stephano.
“Então devem saber”, disse Klaus, “que a Mamba do Mal não matou o tio Monty. O corpo dele não apresentou nenhum matiz tenebroso. Estava pálido, de uma brancura de chamar a atenção.”
“É verdade”, disse o sr. Poe. “Mas isso não indica necessariamente que o dr. Montgomery tenha sido assassinado.”
“Certo”, disse o dr. Lucafont. “Quem sabe, nesta única vez, a cobra não estava a fim de produzir contusões em sua vítima.”
“O mais provável”, disse Violet, “é que o tio Monty tenha sido morto com esses instrumentos.” Ela ergueu o tubo de ensaio de vidro, fechado com a tampa de borracha. “Esse tubo de ensaio tem uma etiqueta onde está escrito Veneno da Mamba, e obviamente pertence ao armário com amostras de venenos do tio Monty.” Ela ergueu a seringa com agulha de ponta fina. “Stephano, ou seja, Olaf, pegou essa seringa e injetou o veneno no tio Monty. Depois fez mais um furo, para ficar parecendo que a cobra o havia mordido.”
“Mas eu gostava tanto do dr. Montgomery”, disse Stephano. “Não teria nada a ganhar com sua morte.”
Às vezes, quando alguém diz uma mentira, é melhor ignorá-la inteiramente.
“Quando eu fizer dezoito anos, como todos sabemos”, prosseguiu Violet, ignorando Stephano inteiramente, “herdarei a fortuna dos Baudelaire, e Stephano pretendia ficar com essa fortuna para ele. Seria mais fácil conseguir isso se estivéssemos num lugar onde fosse mais difícil acompanhar seus movimentos, como por exemplo no Peru.” Violet ergueu o pequeno maço de papéis dobrados. “Estas são passagens para embarcar no Próspero, que sai de Porto Enevoado para o Peru às cinco horas de hoje. Era esse o destino para o qual nos levava Stephano quando por acaso esbarramos com o senhor, sr. Poe.”
“Mas o tio Monty rasgou a passagem de Stephano para o Peru”, disse Klaus, parecendo confuso. “Eu vi quando ele fez isso.”
“É verdade”, disse Violet. “Por isso foi que ele precisou tirar o tio Monty de seu caminho. Ele matou o tio Monty...”, Violet parou um instante e estremeceu tomada por um arrepio. “Ele matou o tio Monty e apanhou esta carteirinha. É o cartão de identificação do tio Monty como membro da Sociedade Herpetológica. Stephano pretendia se fazer passar pelo tio Monty, entrar a bordo do Próspero e escapulir conosco para o Peru.”
“Mas não compreendo”, disse o sr. Poe. “Como foi que Stephano conseguiu saber da fortuna de vocês?”
“Porque na verdade ele é o conde Olaf”, disse Violet, exasperada de ter que explicar o que ela, seus irmãos e vocês e eu já sabíamos desde o momento em que Stephano chegou à casa do tio. “Ele pode ter raspado a cabeça, depilado as sobrancelhas, mas a única maneira de se livrar da tatuagem no tornozelo esquerdo era com esse pulverizador e com esse espelhinho de mão. Ele espalhou maquiagem por cima do tornozelo para esconder o desenho do olho, e aposto que, se esfregarmos o lugar com um pano, vamos ver a tatuagem aparecer.”
“Isso é absurdo!”, exclamou Stephano.
“Veremos”, respondeu o sr. Poe. “Quem tem um pano?”
“Não tenho”, disse Klaus.
“Eu também não”, disse Violet.
“Gauil!”, disse Sunny.
“Bem, se ninguém tem um pano é melhor esquecer tudo”, disse o dr. Lucafont, mas o sr. Poe levantou um dedo para dizer-lhe que esperasse. Para alívio dos órfãos Baudelaire, ele puxou do bolso o seu lenço.
“Seu tornozelo esquerdo, por favor”, disse com firmeza para Stephano.
“Mas o senhor tossiu dentro dele o dia todo!”, disse Stephano. “Está com germes!”
“Se o senhor é realmente quem as crianças dizem que é”, disse o sr. Poe, “os germes são o último dos problemas com que deve se preocupar. Seu tornozelo esquerdo, por favor.”
Stephano – e esta é a última vez, graças a Deus, que teremos de chamá-lo por seu nome falso – soltou um pequeno resmungo, e puxou para cima a perna esquerda da calça para mostrar o tornozelo. O sr. Poe ajoelhou-se e esfregou o pano por alguns instantes. No começo, nada parecia acontecer, até que, como o sol que brilha através das nuvens ao fim de um terrível temporal, o contorno meio apagado de um olho fez sua aparição. E foi se mostrando cada vez mais evidente, mais nítido, o desenho tão pronunciado como quando os órfãos tiveram o primeiro contato com ele, no tempo em que moravam com o conde Olaf.
Violet, Klaus e Sunny olharam todos para o olho, e o olho respondeu ao seu olhar. Pela primeira vez em suas vidas, os órfãos Baudelaire sentiram-se felizes em vê-lo.

Capítulo dez


Quando vocês eram muito pequenos, talvez alguém tenha lido para vocês a insípida história – a palavra “insípida” aqui quer dizer “indigna de se ler para alguém” – do Menino que deu Alarme contra o Lobo. Um menino muito bobo, vocês devem estar lembrados, gritou “Lobo!” quando não havia nenhum lobo, e então os crédulos habitantes da aldeia que correram para salvá-lo ficaram sabendo que era tudo brincadeira. Até que um dia ele gritou “Lobo!” quando não era de brincadeira, e os habitantes não vieram salvá-lo, e o menino foi comido, e a história, graças a Deus, terminava aí.
A moral da história, é claro, deveria ser: “Não more jamais num lugar onde os lobos passeiam à vontade”, mas quem leu para vocês a história provavelmente terá dito que a moral era que não se deve mentir. Ora, essa é uma moral absurda, pois tanto vocês como eu sabemos que às vezes mentir não somente é bom como é necessário. Por exemplo: era perfeitamente apropriado que, depois de Violet deixar a Sala dos Répteis, Sunny se arrastasse até a gaiola onde a Víbora Incrivelmente Mortífera estava presa, destravasse o fecho e começasse a gritar o mais alto de que era capaz, embora nada de realmente errado estivesse acontecendo.
Há outra história a respeito de lobos que provavelmente devem ter contado a vocês e que também é absurda. Estou falando de Chapeuzinho Vermelho, uma garotinha bastante desagradável que, como o Menino que deu Alarme contra o Lobo, insistiu em intrometer-se no território de animais perigosos. Como vocês hão de estar lembrados, o lobo, depois de ser tratado muito rudemente por Chapeuzinho Vermelho, comeu a avó da menina e vestiu a roupa da velha como disfarce. Esse é o aspecto mais ridículo da história, porque mesmo uma garota tão boboca como Chapeuzinho Vermelho saberia na mesma hora notar a diferença entre a avó e um lobo metido numa camisola e calçado com chinelos felpudos. Quando conhecemos muito bem uma pessoa, como nossa avó ou a babá, na mesma hora sabemos dizer se elas são reais ou se são impostoras. Por isso, quando Sunny começou a gritar, Violet e Klaus perceberam de imediato que o grito era absolutamente falso.
“Esse grito é absolutamente falso”, Klaus disse para si mesmo, do outro extremo da Sala dos Répteis.
“Esse grito é absolutamente falso”, Violet disse para si mesma, das escadas, enquanto subia para o seu quarto.
“Meu Deus! Alguma coisa está saindo terrivelmente errado!”, disse o sr. Poe para si mesmo, da cozinha, onde falava ao telefone. “Adeus”, disse, concluindo a ligação. Pôs o aparelho no gancho e saiu correndo para ver o que tinha acontecido. “Que foi que houve?”, perguntou o sr. Poe a Stephano e ao dr. Lucafont, que acabavam de tirar as malas do carro e entravam na casa. “Ouvi uns gritos vindos da Sala dos Répteis.”
“Tenho certeza de que não houve nada”, disse Stephano.
“Sabe como são as crianças”, disse o dr. Lucafont.
“Não podemos ter outra tragédia em nossas mãos!”, disse o sr. Poe, que saiu disparado para a enorme porta da Sala dos Répteis. “Crianças! Crianças!”
“Aqui!”, gritou Klaus. “Venha depressa!” A voz dele soava profunda e rascante, e quem não o conhecesse diria que estava muito assustado. Quem de fato o conhecesse saberia que quando Klaus realmente estava com medo a voz dele saía tensa e esganiçada, como foi o caso quando ele descobriu o corpo do tio Monty. Sua voz só ficava rascante e profunda quando ele tentava conter o riso. Foi uma grande coisa Klaus ter conseguido não rir no momento em que o sr. Poe, Stephano e o dr. Lucafont entraram na Sala dos Répteis. Teria estragado tudo.
Sunny achava-se deitada sobre o piso de mármore, com os bracinhos e as perninhas agitando-se freneticamente como se ela estivesse tentando nadar. A expressão facial dela foi o que fez Klaus ter vontade de rir. A boca de Sunny estava escancarada, mostrando seus quatro dentes afiados, enquanto os olhos piscavam rápido e sem parar.
Ela estava tentando parecer muito assustada, e quem não conhecesse Sunny acreditaria piamente. Mas Klaus conhecia Sunny e sabia que, quando ela ficava muito assustada, seu rosto se franzia todo e mergulhava no maior silêncio, como quando Stephano ameaçou de arrancar um dos dedos do pezinho dela. Para todos, menos para Klaus, Sunny parecia bem apavorada, especialmente levando-se em conta a companhia. Enroscada no corpo miúdo de Sunny, estava uma cobra negra, de um negrume de mina de carvão e grossa como um cano de esgoto. Ela olhava para Sunny com olhos verdes que brilhavam intensamente, e tinha a boca aberta como se estivesse a ponto de mordê-la.
“A Víbora Incrivelmente Mortífera!”, gritou Klaus. “Vai mordê-la!”, e a voz de Klaus esganiçou-se ao mesmo tempo que Sunny escancarou ainda mais a boca e arregalou ainda mais os olhos para parecer ainda mais assustada. A boca do dr. Lucafont também se abriu, e Klaus percebeu que ele começou a dizer qualquer coisa mas foi incapaz de encontrar palavras. Stephano, que evidentemente não estava ligando a mínima para a segurança de Sunny, mostrou-se pelo menos surpreso, mas foi o sr. Poe quem entrou em pânico absoluto.
Há dois tipos básicos de pânico: a pessoa não se move e não diz uma palavra, ou a pessoa fica aos saltos balançando-se para todos os lados e tagarelando qualquer coisa que lhe venha à cabeça. O sr. Poe era do tipo de saltar, balançar-se e falar compulsivamente. Klaus e Sunny jamais o haviam visto mover-se tão rapidamente ou falar com voz tão esganiçada:
“Meu Deus!”, gritou. “Minha nossa! Em nome de Alá! Por Júpiter e Juno! Maria e José! Edgar Allan Poe! Não toque nela! Peguem a cobra! Cheguem mais perto! Fuja! Não se mexa! Matem a cobra! Deixem ela em paz! Deem qualquer comida a ela! Não deixem ela morder a menina! Atraiam a cobra para ela se afastar! Vem cá, cobrinha! Vem, cobrinha, cobrinhazinha!”
A Víbora Incrivelmente Mortífera ouviu pacientemente a fala do sr. Poe, sem deixar de olhar em momento nenhum para Sunny, e, quando o sr. Poe fez uma pausa para tossir no lenço, ela avançou e mordeu Sunny no queixo, no mesmo lugar em que a havia mordido quando as duas amigas se viram pela primeira vez. Klaus tentou não rir, mas o dr. Lucafont interrompeu a respiração, Stephano olhou fixo e o sr. Poe recomeçou a pular e a falar compulsivamente.
“Oh! ela mordeu a menina! Ela mordeu!”, gritou. “Calma, todo mundo! Temos que agir! Chamem uma ambulância! Chamem a polícia! Chamem um cientista! Chamem minha mulher! Isso é terrível! Que coisa mais horrível! Apavorante! Fantasmagórico! Isso é...”
“Não há por que se preocupar”, interrompeu Stephano, tranquilamente.
“Como não há por que se preocupar?!”, perguntou o sr. Poe, incrédulo. “Sunny acaba de ser mordida por... como é que se chama a cobra, Klaus?”
“Víbora Incrivelmente Mortífera”, respondeu Klaus na mesma hora.
“Víbora Incrivelmente Mortífera!”, repetiu o sr. Poe, apontando para a cobra que cravara os dentes no queixo de Sunny e não o largava. Sunny soltou outro grito agudo de falso terror. “Como é que é que o senhor pode dizer que não há por que se preocupar?”
“Porque a Víbora Incrivelmente Mortífera é inteiramente inofensiva”, disse Stephano. “Tenha calma, Poe. O nome da cobra é inapropriado, o dr. Montgomery deu-lhe esse nome de pura gozação.”
“Tem certeza?”, perguntou o sr. Poe. Baixou um pouco o tom de voz e passou a mover-se um pouco mais devagar, à medida que começou a acalmar-se.
“Claro que tenho certeza”, disse Stephano, e Klaus reconheceu no rosto dele uma expressão familiar, de que se lembrava da época em que morava com os irmãos na casa do conde Olaf. Era uma expressão de pura vaidade, palavra que aqui tem o sentido de “conde Olaf julgando-se a pessoa mais incrível que já existiu em todos os tempos”. Quando os Baudelaire se achavam sob os cuidados de Olaf, ele muitas vezes agiu dessa maneira, sempre feliz em exibir ostentosamente seus talentos, fosse no palco com a sua atroz companhia teatral, fosse em sua sala no alto da torre enquanto arquitetava planos maléficos. Stephano sorriu, e continuou a falar para o sr. Poe, ansioso por se mostrar. “A cobra é perfeitamente inofensiva, eu diria até amigável. Li e me informei muito bem sobre a Víbora Incrivelmente Mortífera e sobre muitas outras cobras na biblioteca da Sala dos Répteis, sem falar que consultei os trabalhos no arquivo pessoal do dr. Montgomery.”
O dr. Lucafont limpou a garganta: “Hã, chefe...”, disse.
“Não me interrompa, dr. Lucafont”, disse Stephano. “Estudei livros sobre todas as espécies principais. Examinei cuidadosamente esboços e gráficos. Fiz anotações meticulosas que revi todas as noites antes de ir dormir. Considero-me, se assim posso dizer, um especialista e tanto em cobras.”
“A-há!”, exclamou Sunny, desembaraçando-se da Víbora Incrivelmente Mortífera.
“Sunny! Você não se machucou!”, exclamou o sr. Poe.
“A-há!”, exclamou Sunny novamente, apontando para Stephano. A Víbora Incrivelmente Mortífera piscou os seus olhos verdes, triunfante.
Sr. Poe olhou para Klaus, intrigado.
“Que é que sua irmã quer dizer com A-há?”, perguntou.
Klaus suspirou. Às vezes tinha a sensação de haver passado metade de sua vida explicando coisas ao sr. Poe. “Com A-há”, disse ele, “ela está querendo dizer que Stephano primeiro declara que não sabe nada sobre cobras e depois vem afirmar que é um especialista e tanto! Esse A-há é para ser entendido como 'Stephano esteve mentindo para nós'. A-há é igual a 'finalmente conseguimos demonstrar a desonestidade dele para o senhor!'. Com A-há ela quer dizer A-há!”

Capítulo onze


Enquanto isso, no andar de cima, Violet inspecionava seu quarto com olho crítico apurado. Respirou fundo, e em seguida amarrou os cabelos com uma fita, para afastá-los dos olhos. Como bem sabemos vocês e eu e todos os que conhecem bem Violet, quando ela amarra os cabelos desse jeito é porque está precisando se concentrar. E neste exato momento ela precisava bolar uma invenção com a máxima urgência.
Quando Klaus mencionou a ordem de Stephano de carregarem a mala dele para dentro da casa, Violet deu-se conta de que a prova que ela estava procurando tanto se achava sem sombra de dúvida naquela mala. E agora, enquanto os irmãos se ocupavam em distrair os adultos na Sala dos Répteis, ela tinha uma oportunidade única de abrir a mala e tomar posse da prova do plano perverso de Stephano. Mas o ombro dolorido fez com que ela se lembrasse de que não era tão simples abrir aquela mala: estava trancada, com um cadeado tão brilhante quanto os olhos de Stephano quando ele tinha algum plano em mente. Confesso que, se eu estivesse no lugar de Violet, dispondo de poucos minutos para abrir aquela mala trancada com cadeado – em vez de me encontrar aqui no convés do iate de minha amiga Bela, pondo estas palavras no papel –, provavelmente eu teria desistido de ter esperanças. Teria me jogado no chão do quarto, socando o tapete com meu punho irado enquanto protestaria em pensamento contra o absurdo de a vida ser tão injusta e tão repleta de inconveniências.
Por sorte dos Baudelaire, entretanto, Violet era pessoa de mais fibra, e seus olhos passaram em revista o quarto à procura de qualquer coisa que pudesse ajudá-la. Não havia muito em matéria de elementos que pudessem ser aproveitados em invenções.
Violet sempre havia sonhado com um quarto apropriado para suas invenções, abastecido com arames e engrenagens e com todo o equipamento necessário para produzir invenções de qualidade. O tio Monty na verdade possuía muitos desses elementos, mas – para grande frustração de Violet quando pensou nisso – eles se achavam localizados na Sala dos Répteis. Ela olhou para as folhas de papel pregadas com tachinhas na parede, onde esperara esboçar suas invenções ao ir morar na casa do tio Monty. O problema havia surgido tão rapidamente que Violet mal tivera tempo de pôr alguns rabiscos numa das folhas, rabiscos que ela havia escrito sob a luz de uma luminária de pé na primeira noite que passara ali. Ao lembrar-se daquela noite os olhos de Violet deslocaram-se até a lâmpada, e quando se fixaram na tomada ela teve uma ideia.
Sabemos, sem dúvida, que não se deve nunca, mas nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca, nunca nunca ficar mexendo à toa em material elétrico. Nunca. Há dois motivos para isso. Primeiro: você pode ser eletrocutado, o que é não apenas mortal, mas muito desagradável. Segundo: você não é Violet Baudelaire, uma das poucas pessoas no mundo que sabe como lidar com essas coisas. E a própria Violet teve o máximo cuidado e estava muito tensa quando retirou o plugue da lâmpada e ficou a observá-la pensativa. Podia ser que a ideia funcionasse. Na esperança de que Klaus e Sunny continuassem a ter êxito em desviar a atenção dos adultos, Violet girou os pinos do plugue numa e noutra direção, seguidamente, até que conseguiu retirá-los do encaixe de plástico. Tinha agora duas pequenas barras metálicas. Soltou, então, uma das tachinhas que fixava o papel na parede, fazendo com que a parte de cima do papel rolasse para baixo. Com a ponta afilada da tachinha espetou as duas peças de metal até uma ficar enganchada na outra, em seguida forçou a tachinha numa posição tal que a ponta afilada ficasse para fora, saliente. O resultado assemelhava-se a uma peça de metal que talvez vocês nem notassem se estivesse jogada na rua, mas, na verdade, o que Violet havia feito era uma grosseira – a palavra grosseira tem aqui o sentido de “tosca, feita em cima da hora” e não de “rude ou mal-humorada” – gazua. Gazuas, como talvez vocês saibam, são chaves falsas que funcionam como se fossem chaves de verdade, usadas por bandidos arrombadores para roubar casas ou para escapar da prisão. Mas esta foi uma das raras ocasiões em que a gazua estava sendo usada pela mocinha: Violet Baudelaire.
Violet desceu as escadas devagarinho e sem fazer barulho, com a gazua numa das mãos, os dedos cruzados na outra. Passou pela enorme porta da Sala dos Répteis, andando na ponta dos pés, e, fiada na esperança de que não notariam sua ausência, escapuliu para fora da casa. Desviando de propósito seus olhos do carro do dr. Lucafont para evitar ter uma vista, mínima que fosse, do corpo do tio Monty, a mais velha dos Baudelaire caminhou até a pilha de malas. Seu primeiro olhar foi para as malas antigas, que pertenciam a ela e a seus irmãos. Essas malas continham, estava bem lembrada, uma porção de roupas feiosas que pinicavam o corpo, roupas compradas para eles pela sra. Poe logo depois que os Baudelaire pais morreram. Por instantes, Violet teve sua atenção presa a essas malas, rememorando a vida mansa que havia tido antes que todo aquele monte de problemas desabasse sobre a família, e pensando como era surpreendente ver-se agora em circunstâncias tão infelizes. Isso pode não ser surpreendente para nós, porque conhecemos quanto são desgraçadas as vidas dos órfãos Baudelaire, mas o infortúnio de Violet era uma constante surpresa para ela, que precisou de todo um minuto para expulsar da cabeça esses pensamentos e concentrar-se no que tinha a fazer.
Ajoelhou-se para ficar mais perto da mala de Stephano, segurou o cadeado de prata numa das mãos, respirou fundo e enfiou a gazua na fechadura. A gazua entrou, mas quando tentou girar ela quase não se mexeu, só arranhou de leve o interior da fechadura. Precisava mover-se com maior desenvoltura, do contrário era inútil esperar que funcionasse. Violet retirou a gazua e umedeceu-a na boca, fazendo uma careta por causa do sabor desagradável do metal. Em seguida tornou a enfiar a gazua na fechadura e tentou movê-la. A chave falsa deu uma mexidinha à toa e mais nada.
Violet retirou a gazua e concentrou-se com esforço máximo em seus pensamentos, voltando a amarrar a fita nos cabelos. Ao afastar o cabelo de seus olhos, entretanto, sentiu um súbito formigamento na pele. Desagradável, mas que não lhe era estranho. Era a sensação de estar sendo observada. Rápido, olhou para trás, mas viu só os arbustos em forma de cobras no gramado. Olhou para o lado e viu só a rampa que levava ao Mau Caminho. Até que firmou a vista para a frente, fixando-a através das paredes de vidro da Sala dos Répteis.
Nunca lhe havia ocorrido que as pessoas pudessem ver de fora para dentro das paredes da Sala dos Répteis tão claramente como podiam ver de dentro para fora, mas, quando olhou para cima, Violet viu, por trás das gaiolas dos répteis, a figura do sr. Poe aos pulos, excitadíssimo. Vocês e eu sabemos, naturalmente, que o sr. Poe entrara em pânico por causa de Sunny e a Víbora Incrivelmente Mortífera, mas tudo o que Violet pôde perceber era que, qualquer que fosse a trama bolada pelos irmãos, estava funcionando. O formigamento em sua pele não se explicou, entretanto, até ela focalizar melhor sua atenção um pouco à direita do sr. Poe – quando então viu que Stephano olhava fixo para ela.
Abriu a boca, tomada de surpresa e pânico. Ela sabia que agora, a qualquer instante, Stephano inventaria uma desculpa para sair da Sala dos Répteis e vir à sua procura, e ela nem sequer abrira a mala. Depressa, já, o quanto antes, ela tinha que encontrar um meio de fazer sua gazua funcionar. Baixou os olhos para as pedras úmidas da rampa de entrada e em seguida ergueu-os para o fosco e amarelado sol da tarde. Olhou para as próprias mãos, sujas de poeira pelo trabalho de desmontar o plugue, e foi então que lhe veio uma ideia.
De um salto, Violet voltou em disparada para dentro da casa como se Stephano já estivesse em sua perseguição, e passou como um relâmpago pela porta que dava para a cozinha. Derrubando no chão uma cadeira que estava em seu caminho, ela apanhou uma barra de sabão na pia que gotejava, esfregou a substância escorregadia cuidadosamente na sua gazua até cobrir todo o instrumento de uma fina camada escorregadia. Com o coração aos pulos dentro do peito, saiu para fora da casa de novo, dando uma rápida espiada nas paredes de vidro da Sala dos Répteis. Stephano estava dizendo algo ao sr. Poe – ele gabava-se de seu conhecimento especializado sobre cobras, mas Violet não tinha como saber disso –, e Violet aproveitou esse momento para ajoelhar-se e tornar a enfiar a gazua na fechadura do cadeado. A ferramenta deu rapidamente a volta completa, e então rompeu-se em duas, bem nas suas mãos. Uma das metades soltou-se e caiu no gramado, enquanto a outra permanecia presa na fechadura como um dente pontudo. Sua gazua estava destruída.
Violet cerrou os olhos um instante, desesperada, e em seguida levantou-se num só impulso, apoiando-se na mala para se equilibrar. Quando ela pôs a mão sobre a mala, entretanto, o cadeado destravou-se com o golpe e a mala tombou para um lado, aberta, espalhando tudo pelo chão. Violet caiu para trás de surpresa. Às vezes, mesmo nas vidas mais desgraçadas, acontece um momento ou dois de boa sorte. É muito difícil, como contam as pessoas que tiveram essa experiência, encontrar uma agulha num palheiro, daí “agulha num palheiro” ter se tornado um chavão muito difundido que equivale a “algo que é difícil de achar”. Naturalmente, o motivo que torna difícil achar uma agulha num palheiro é que, de todas as coisas que existem num palheiro, a agulha é apenas uma delas. Mas se vocês estivessem procurando qualquer coisa num palheiro, isso não seria difícil, de modo algum, porque, uma vez que começassem a revistar com minúcia o palheiro, com certeza achariam alguma coisa: feno, terra, insetos, ferramentas de jardinagem, e talvez até um homem que houvesse fugido da prisão e estivesse escondido ali. Quando Violet remexeu no conteúdo da mala de Stephano, era como se estivesse procurando qualquer coisa no palheiro, porque não sabia exatamente o que queria encontrar. Portanto, foi na verdade razoavelmente fácil encontrar objetos que comprovassem o crime: um tubo de ensaio fechado por tampa de borracha, do tipo que se vê nos laboratórios; uma seringa com agulha de ponta fina, como a que um médico usa para dar injeções; um pequeno maço de papéis dobrados; uma carteirinha; um pulverizador e um espelhinho de mão.
Mesmo sabendo que só dispunha de mais alguns poucos minutos, Violet separou esses objetos das roupas perfumadas e da garrafa de vinho que também estavam dentro da mala, e olhou-os detidamente, concentrando-se em cada um daqueles objetos como se fossem peças que ela usaria para construir uma máquina. E, de certo modo, não eram outra coisa. Violet Baudelaire precisava articular aqueles elementos para derrotar o plano maléfico de Stephano e trazer paz e justiça para a vida dos órfãos Baudelaire pela primeira vez desde que seus pais haviam morrido no terrível incêndio. Violet olhava fixo para cada um daqueles objetos, refletindo muito, concentrada; não demorou muito a expressão de seu rosto iluminou-se, como sempre acontecia quando todas as peças soltas de um conjunto se encaixavam perfeitamente e a máquina se punha a funcionar tal como devia.

Capítulo nove


Quando Violet abriu a enorme porta que dava para a Sala dos Répteis, os animais continuavam em suas gaiolas, os livros continuavam nas estantes e o sol matinal continuava atravessando as paredes de vidro, mas o lugar simplesmente não era o mesmo. Não fazia diferença que o dr. Lucafont já houvesse removido o corpo do tio Monty: a Sala dos Répteis deixara de ser convidativa como era antes e provavelmente jamais voltaria a sê-lo. A ocorrência de um acidente em certo lugar pode criar uma mancha nos sentimentos de uma pessoa em relação a esse local, como a mancha de tinta que perdura num lençol branco. Por mais que se esfregue e se lave para tirar essa mancha da memória, não há como esquecer o que aconteceu e deixou todo mundo triste.
“Não quero entrar”, disse Klaus. “Tio Monty morreu aqui.”
“Eu sei que não queremos estar aqui”, disse Violet. “Mas tem um serviço que precisamos fazer.”
“Serviço?”, perguntou Klaus. “Que serviço?”
Violet disse com os dentes cerrados: “Temos um serviço que o sr. Poe deveria estar fazendo, no entanto, como sempre, as intenções dele são boas mas a ajuda que nos dá é nenhuma”. Klaus e Violet suspiraram quando ela expressou em voz alta um sentimento que os três jamais haviam posto para fora mas sempre esteve no coração deles, desde que o sr. Poe passou a cuidar dos assuntos dos irmãos. “O sr. Poe não acredita que Stephano e o conde Olaf sejam a mesma pessoa. E ele acha que a morte do tio Monty foi um acidente. Temos que provar que ele está enganado em ambos os casos.”
“Mas Stephano está sem a tatuagem”, assinalou Klaus. “E o dr. Lucafont encontrou o veneno da Mamba do Mal nas veias de Monty.”
“Eu sei, eu sei”, disse Violet, impaciente. “Nós três sabemos a verdade. Mas para convencer os adultos precisamos descobrir provas do plano de Stephano.”
“Se ao menos tivéssemos encontrado provas antes”, disse Klaus, melancólico. “Aí, quem sabe, poderíamos ter salvado a vida do tio Monty.”
“Sobre isso já nada podemos fazer”, disse Violet sem levantar a voz. Deu um olhar em volta da Sala dos Répteis, onde o tio Monty havia trabalhado durante toda a vida. “Mas se conseguirmos colocar Stephano atrás das grades pelo assassinato que cometeu, pelo menos estaremos impedindo que ele faça mal a alguém mais.”
“Inclusive a nós”, observou Klaus.
“Inclusive a nós”, concordou Violet. “Vamos ver, então. Klaus, localize todos os livros do tio Monty que possam conter informação sobre a Mamba do Mal. Me fale assim que você encontrar qualquer coisa.”
“Mas essa pesquisa pode levar dias”, disse Klaus, olhando para a biblioteca considerável de Monty.
“Bem, nós não dispomos de dias”, disse Violet com firmeza. “Não dispomos sequer de horas. Às cinco da tarde, o Próspero sai de Porto Enevoado, e Stephano fará tudo o que estiver a seu alcance para garantir que a gente esteja a bordo. E se formos parar no Peru sozinhos com ele...”
“Tudo bem, tudo bem”, disse Klaus. “Mãos à obra. Vamos, pegue este livro.”
“Não vou pegar livro nenhum”, disse Violet. “Enquanto você passa os olhos na biblioteca, eu subo para o quarto de Stephano e vejo se encontro alguma pista.”
“Sozinha?”, perguntou Klaus. “No quarto dele?”
“Estarei em perfeita segurança”, disse Violet, embora não tivesse a menor ideia do que estava dizendo. “E você, ande rápido com esses livros, Klaus. Sunny, vigie a porta e morda quem tentar entrar.”
“Acrode!”, disse Sunny, provavelmente querendo dizer algo como “OK!”.
Violet saiu e, cumprindo o prometido, Sunny sentou-se diante da porta com os dentes à mostra, arreganhados. Klaus foi até o canto mais distante da sala, onde ficava a biblioteca, cautelosamente evitando passar pelas gaiolas com cobras venenosas. Não arriscou sequer um olhar para a Mamba do Mal ou para qualquer dos outros répteis mortíferos. Mesmo sabendo que o culpado pela morte do tio Monty havia sido Stephano e não propriamente a cobra, era difícil para ele suportar ver o réptil que tinha acabado com os bons tempos vividos por ele e suas irmãs. Klaus soltou um suspiro e abriu um livro. Como em tantas outras ocasiões quando o garoto Baudelaire queria deixar de pensar na sua situação, ele começou a ler.
Aqui não tenho como deixar de usar o recurso já bastante batido do “enquanto isso”. O termo batido refere-se a “usado por tantos e tantos escritores que, quando Lemony Snicket o emprega neste texto, já se tornou um chavão”. “Enquanto isso” é uma fórmula usada para ligar o que acontece numa parte da história com o que está acontecendo noutra parte: aqui, refere-se ao que Violet estava fazendo enquanto Klaus e Sunny se encontravam na Sala dos Répteis. Porque, quando Klaus começou a pesquisa na biblioteca do tio Monty e Sunny ficou vigiando a porta da sala com seus dentes afiados, Violet estava envolvida numa operação que, tenho certeza, há de ser de grande interesse para vocês.
Violet estava atrás da porta da cozinha, tentando escutar o que os adultos diziam. Como vocês bem sabem, o segredo do sucesso na espionagem está em não ser apanhado, de modo que Violet se moveu até lá o mais discretamente possível, esforçando-se para não pisar em partes do assoalho que pudessem estalar, por exemplo. Quando chegou à porta, teve o cuidado de tirar do bolso a fita que usava para amarrar os cabelos, colocando-a em seguida no chão, para o caso de, se alguém abrisse a porta, ela poder alegar que estava se ajoelhando ali para apanhar a fita, e não para espionar. Esse era um truque que ela aprendera quando era bem pequena e ficava à porta do quarto de seus pais para saber o que eles estavam planejando para o aniversário dela; como todos os bons truques, ainda funcionava.
“Mas, sr. Poe, se Stephano for comigo no meu carro, e o senhor for dirigindo o jipe do dr. Montgomery”, dizia o dr. Lucafont, “como é que o senhor vai saber o caminho?”
“Entendo o que o senhor quer dizer”, disse o sr. Poe. “Mas não me parece que Sunny vá querer sentar-se no colo do dr. Montgomery, estando ele morto. Temos que pensar noutra solução.”
“Eu tenho uma”, disse Stephano. “Vou com as crianças dirigindo o carro do dr. Lucafont, e o dr. Lucafont pode ir com o senhor e o dr. Montgomery no jipe do dr. Montgomery.”
“Receio que isso não funcione”, disse o dr. Lucafont muito seriamente. “As leis da cidade não permitem que o carro seja dirigido por alguém que não seja o proprietário.”
“E nem sequer discutimos a questão da bagagem das crianças”, disse o sr. Poe.
Violet pôs-se de pé, concluindo, pelo que acabara de ouvir, que teria tempo de sobra para subir ao quarto de Stephano. Sem fazer o menor barulho, Violet subiu a escada de degrau em degrau, depois percorreu o hall até a porta do quarto de Stephano, exatamente onde ele se sentara com a faca na mão naquela noite pavorosa. Ao chegar à porta, Violet parou. Era curioso, pensou ela, como tudo o que se relacionava com o conde Olaf causava pavor. O simples fato de estar olhando para a porta do seu quarto era bastante para que o coração dela começasse a bater com toda a força. Naquele momento Violet descobriu que uma parte dela alimentava a esperança de que Stephano subisse correndo as escadas e a detivesse no ponto onde se achava, e, assim, ela não precisasse abrir a porta e entrar no quarto em que ele dormia. Mas Violet pensou então em sua própria segurança, e na de seus dois irmãos. Muitas vezes, quando uma pessoa está ameaçada, ela descobre uma coragem que não sabia possuir, e a mais velha dos Baudelaire descobriu que podia ter bravura suficiente para abrir a porta. Ainda sentindo doer-lhe o ombro em consequência da batida de carro, Violet girou a maçaneta de metal e entrou.
O quarto, como Violet desconfiava, estava uma bagunça imunda. A cama não havia sido feita e tinha migalhas de bolachas e fios de cabelo espalhados por cima dos lençóis. Jornais velhos e catálogos para encomendas por correspondência formavam pilhas desordenadas sobre o chão. Em cima de uma cômoda havia um pequeno estoque de garrafas de vinho pela metade. A porta do guarda-roupa estava aberta, deixando entrever uma penca de cabides de arame enferrujados que balançavam no quarto exposto a correntes de ar. As cortinas das janelas achavam-se todas arrepanhadas e cobertas aqui e ali por uma crosta escamosa – chegando mais perto, Violet percebeu com verdadeiro horror que Stephano havia assoado o nariz nelas.
Por mais repulsiva que fosse, entretanto, aquela mucosidade endurecida não era o tipo de prova que Violet estava esperando colher. A mais velha dos órfãos Baudelaire postou-se no centro do quarto e circulou o olhar pela embaraçosa desordem do aposento. Tudo era horrendo, não havia ali nada que pudesse ajudar. Violet esfregou o ombro machucado e lembrou-se de quando ela e os irmãos moravam com o conde Olaf e se viram trancados na sala da torre. Apesar do pavor que sentiram ao serem encurralados no retiro secreto dele – expressão que aqui significa “lugar imundo onde se arquitetam planos maléficos” –, na verdade a permanência na torre revelou-se bem proveitosa porque lhes permitiu ler e informar-se sobre a lei nupcial, propiciando uma saída para o sufoco em que se achavam. Mas ali, no retiro secreto de Stephano na casa do tio Monty, tudo o que Violet conseguiu descobrir foram sinais de falta de asseio. Em algum lugar Stephano certamente teria deixado indícios que pudessem ser percebidos por Violet e usados para convencer o sr. Poe – mas onde? Desanimada, e receando ter passado tempo demais no quarto de Stephano, Violet tratou de descer as escadas sem fazer barulho.
“Não, não, não”, o sr. Poe estava dizendo, quando ela parou junto à porta da cozinha, na escuta novamente. “O dr. Montgomery não pode dirigir. Está morto. Deve haver um modo de resolver isso.”
“Já disse e repeti uma porção de vezes”, disse Stephano, e dava para Violet perceber que ele estava ficando aborrecido. “A maneira mais fácil é eu levar as três crianças para a cidade, enquanto o senhor me segue com o dr. Lucafont e o cadáver. Que pode haver de mais simples?”
“Talvez o senhor tenha razão”, disse o sr. Poe com um suspiro, e Violet correu para dentro da Sala dos Répteis.
“Klaus! Klaus!”, ela gritou. “Me diga por favor que encontrou alguma coisa! Fui ao quarto de Stephano mas lá não descobri nada que possa nos ajudar, e acho que Stephano vai conseguir ficar sozinho conosco no carro do tio Monty.”
Klaus respondeu com um sorriso e começou a ler em voz alta a página de um livro que estava segurando: “A Mamba do Mal é uma das cobras mais mortíferas do hemisfério, notável pelo bote estrangulatório em conjunção com um veneno mortal que produz em suas vítimas um matiz tenebroso, horrível de se ver”.
“Estrangulatório? Conjunção? Tenebroso? Matiz?”, repetiu Violet. “Não tenho nem ideia do que é que você está falando.”
“Eu também fiquei sem entender”, admitiu Klaus, “até que fui procurar algumas dessas palavras no dicionário. Estrangulatório é 'relativo a estrangulamento'. Em conjunção é 'junto com', 'acompanhado de'. Tenebroso é 'escuro, sombrio'. E matiz é o mesmo que 'cor, coloração'. Ou seja: a Mamba do Mal é famosa por estrangular as pessoas enquanto morde, deixando marcas escuras no lugar dos apertões.”
“Basta! Pare!”, gritou Violet tapando os ouvidos. “Não quero ouvir mais nada do que aconteceu com o tio Monty!”
“Você não está entendendo”, disse Klaus sem levantar a voz. “Não foi isso que aconteceu com o tio Monty.”
“Mas o dr. Lucafont declarou que havia veneno da Mamba do Mal nas veias do tio Monty”, disse Violet.
“Claro que havia”, disse Klaus, “mas não foi a cobra que pôs o veneno lá. Se tivesse sido ela, teria deixado o corpo do tio Monty com marcas escuras. E você está lembrada, tanto quanto eu, que o corpo estava de uma brancura de chamar a atenção.”
Violet ia começar a falar mas parou, lembrando-se do rosto pálido, tão pálido do tio Monty quando o encontraram. “É verdade”, disse ela. “Mas então como que ele foi envenenado?”
“Lembra-se de como o tio Monty guardava o veneno de todas as cobras venenosas em tubos de ensaio, para estudá-los?”, disse Klaus. “Acho que Stephano pegou o veneno e injetou-o no tio Monty.”
“É mesmo?”, Violet estremeceu. “Que horrível!”
“Oquipi!”, gritou Sunny, aparentemente concordando.
“Quando contarmos isso ao sr. Poe”, disse Klaus, confiante, “Stephano será detido pelo assassinato do tio Monty e mandado para a cadeia. Não vai mais ter como nos levar às escondidas para o Peru, ou nos ameaçar com facas, ou nos obrigar a carregar sua mala, nem nada parecido com isso.”
Violet encarou o irmão, arregalando os olhos, empolgadíssima: “A mala!”, disse ela. “A mala dele!”
“Do que é que você está falando?”, disse Klaus, intrigado.
E Violet estava a ponto de explicar-lhe quando bateram à porta.
“Entre!”, respondeu Violet, fazendo um sinal a Sunny para que não mordesse o sr. Poe, que entrava.
“Espero que estejam um pouco mais calmos”, disse o sr. Poe, olhando para os meninos, um de cada vez, “e tenham abandonado a ideia de que Stephano é o conde Olaf.”
“Mesmo que ele não seja o conde Olaf”, respondeu Klaus com muita cautela, “achamos que ele pode ser o responsável pela morte do tio Monty.”
“Absurdo!”, exclamou o sr. Poe, enquanto Violet balançava a cabeça de um lado para o outro, discretamente. “A morte do tio Monty foi um acidente terrível, e nada mais.”
Klaus ergueu o livro que estava lendo. “Mas, enquanto o senhor estava na cozinha, nós estávamos aqui lendo sobre cobras, e...”
“Lendo sobre cobras?”, repetiu o sr. Poe. “Eu imaginaria que vocês quisessem ler sobre qualquer assunto menos sobre cobras, depois do que aconteceu ao dr. Montgomery.”
“Mas eu descobri uma coisa”, disse Klaus, “que...”
“Não importa o que você descobriu sobre cobras”, disse o sr. Poe, tirando do bolso um lenço. Os Baudelaire esperaram enquanto ele tossia dentro do lenço antes de guardá-lo no bolso. “Não importa”, ele tornou a dizer, “o que você descobriu sobre cobras. Stephano não conhece nada de cobras. Ele próprio nos disse isso.”
“Mas...”, disse Klaus, e parou ao olhar para Violet. Ela tornou a fazer um sinal de negativa com a cabeça, bem discretamente. Era um sinal, um aviso para que não dissesse mais coisa alguma ao sr. Poe. Encarou a irmã, depois o sr. Poe, e calou a boca.
O sr. Poe tossiu ligeiramente no seu lenço e olhou para o relógio no pulso. “Agora que esse assunto está resolvido, vamos passar ao trajeto que temos que fazer de carro. Já sei que vocês três estavam ansiosos para conhecer o interior do automóvel de um médico, mas discutimos e examinamos a questão de mil maneiras e simplesmente não há como esse esquema funcionar. Vocês três irão para a cidade no carro de Stephano, enquanto eu irei com o dr. Lucafont e seu tio Monty. Stephano e o dr. Lucafont estão agora retirando do jipe as malas com a bagagem de vocês e partiremos dentro de poucos minutos. Se me dão licença, tenho que ligar para a Sociedade Herpetológica a fim de comunicar a má notícia.” O sr. Poe tossiu mais uma vez no seu lenço e retirou-se da sala.
“Por que você não quis que eu contasse para o sr. Poe a respeito do que li?”, perguntou Klaus a Violet, quando se certificou de que o sr. Poe já estava a uma distância de que não podia ouvi-lo. Violet não deu resposta. Ela olhava pelos vidros da Sala dos Répteis, vendo o dr. Lucafont e Stephano passar pelos arbustos em forma de cobras e caminhar até o jipe do tio Monty. Stephano abriu a porta do jipe e o dr. Lucafont começou a segurar as malas que retirou do banco de trás com suas mãos estranhamente rígidas. “Violet, por que você não quis que eu contasse para o sr. Poe a respeito do que li?”
“Quando os adultos vierem nos buscar”, disse Violet, sem dar atenção à pergunta de Klaus, “retenha-os na Sala dos Répteis até eu voltar.”
“Mas como farei isso?”, perguntou Klaus.
“Invente uma distração”, respondeu Violet com impaciência, sem deixar de acompanhar pela janela o trabalho do dr. Lucafont de empilhar as malas.
“Que distração?”, perguntou Klaus, ansioso. “Como?”
“Pelo amor de Deus, Klaus!”, sua irmã mais velha respondeu. “Você leu centenas de livros. Com toda a certeza deve ter lido algo sobre como distrair as pessoas.”
Klaus pensou um instante. “Com o objetivo de ganhar a Guerra de Troia”, disse, “os gregos antigos esconderam soldados dentro de um enorme cavalo de madeira. Foi um tipo de distração. Mas eu não tenho tempo de construir um cavalo de madeira.”
“Então trate de pensar em alguma outra coisa”, disse Violet, que começou a andar em direção à porta, sempre olhando pela janela. Klaus e Sunny olharam primeiro para a irmã, depois, pela janela da Sala dos Répteis, olharam para onde ela estava olhando. É notável como pessoas diferentes têm pensamentos diferentes ao olhar para a mesma coisa. Porque, quando os dois Baudelaire, mais jovens olharam para a pilha de malas, o único pensamento foi: se não fizessem algo rapidamente, acabariam ficando sozinhos no jipe do tio Monty com Stephano. Mas, pela maneira de olhar de Violet ao sair da Sala dos Répteis, ela obviamente estava pensando em outra coisa. Klaus e Sunny não conseguiram imaginar o que fosse, mas, de algum modo, sua irmã havia chegado a uma conclusão diferente ao olhar para sua própria mala marrom, ou talvez a bege que levava as coisas de Klaus, ou a cinzenta pequenina com a bagagem de Sunny, ou talvez a grande e preta, com o brilhante cadeado de prata, que pertencia a Stephano.